Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: INPCI_2023_008
  • Domínio: Práticas sociais, rituais e eventos festivos
  • Categoria: Festividades cíclicas
  • Denominação: Romaria da Senhora da Peneda
  • Outras denominações: Festa da Senhora da Peneda; Romaria da Peneda
  • Contexto tipológico: A Romaria da Senhora da Peneda remonta provavelmente à primeira metade do século XIII. Decorre entre os dias 31 de agosto e 8 de setembro, no lugar da Peneda, na freguesia serrana da Gavieira, concelho de Arcos de Valdevez, distrito de Viana do Castelo. Esta festividade cíclica anual é marcada pela realização de uma novena, com início ao meio dia do dia 31 de agosto terminando no dia 8 de setembro. Cumprir a novena ou a meia-novena, assistir às missas, sair em procissão, rezar no altar da Senhora, alugar um ou vários ex-votos, dar nove ou mais voltas ao redor da igreja, visitar as capelas da via-sacra com ex-votos na mão e rezar o terço em surdina são alguns dos rituais que o romeiro realiza e que visam pagar uma ou várias promessas quer por si, quer por algum familiar próximo. No entanto, como em inúmeras festividades religiosas cíclicas que decorrem no Alto Minho, em particular no verão, motivações profanas levam também muitos participantes à Romaria, especialmente na noite do dia 6, quando no Largo do Terreiro, ao fundo do Escadório das Virtudes, largas centenas de pessoas participam nas danças, nos cantares ao desafio e interpretam músicas populares como viras, chulas ou canas verdes.
  • Contexto social:
    Comunidade(s): Comunidade local; Romeiros
    Grupo(s): Confraria de Nossa Senhora da Peneda
  • Contexto territorial:
    Local: Lugar da Peneda
    Freguesia: Gavieira
    Concelho: Arcos de Valdevez
    Distrito: Viana do Castelo
    País: Portugal
    NUTS: Portugal \ Continente \ Norte \ Minho-Lima
  • Contexto temporal:
    Periodicidade: A Romaria é realizada anualmente
    Data(s): De 31 de Agosto a 8 de Setembro.
  • Caracterização síntese:
    Com uma origem provável no início do século XIII, a Romaria da Senhora da Peneda realiza-se anualmente, entre os dias 31 de agosto e 8 de setembro. Decorre num Santuário dedicado à Virgem Maria, sob a invocação de Senhora da Peneda, que aqui é definida pelo nome do local: lugar da Peneda. Nos dias de Romaria convergem para este Santuário romeiros dos concelhos vizinhos de Melgaço, Arcos de Valdevez, Monção e Ponte da Barca e até de algumas localidades mais distantes, atraídos pela crença no poder taumaturgo da Senhora da Peneda (“Virgem bendita e milagreira” - “Mui pequena mas muito milagreira”) e desejosos de viver uma experiência de peregrinação pelos montes e vales que compõem a Serra do Soajo. A qualidade milagreira traz aqui romeiros para cumprir promessas e dar a esmola durante todo o ano, mas é nos dias principais da Romaria que ocorre a maior manifestação da crença no poder da Virgem, que personifica uma panaceia e benfeitora para todo o tipo de doenças e pedidos. Alguns dos preceitos da Romaria, no seu formato de novena, contribuem para a sua peculiaridade: acordar muito cedo para rezar junto de cada uma das vinte capelas da via-sacra, ambular a capela da Senhora das Dores e, posteriormente, a igreja (9 voltas, sempre em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio). No dia 8 de setembro finalizam-se as celebrações com a missa e a Procissão do Adeus. A Romaria está marcada por um sentimento de fé partilhada que realça as afinidades de pertença entre membros de comunidades vizinhas, elementos de um mundo rural e montanhoso que permanece um referencial importante para uma grande parte dos romeiros, mesmo que esse mundo tenha, na prática, terminado. A permanência do sentido da localidade que agrega pessoas com experiências religiosas, mas também sociais e económicas muito próximas, torna-se particularmente sensível na noite do arraial (6 de setembro), com manifestações musicais de grande significado para estas comunidades, que nelas participam e executam cantos e danças.
  • Caracterização desenvolvida:
    Nota: os informantes estão referenciados do seguinte modo: (papel, idade, local de residência). As transcrições completas das entrevistas estão disponíveis na "Documentação". A Romaria da Senhora da Peneda é uma celebração Mariana organizada anualmente no Santuário da Peneda, localizado no lugar de mesmo nome. O lugar da Peneda localiza-se na freguesia da Gavieira, situada entre Soajo e Castro Laboreiro, a cerca de 44km da vila sede de concelho - Arcos de Valdevez. Por volta da década de 70 do século XVII, a Peneda era designada por sítio e não por lugar, o que deixa pensar que não havia ainda a povoação que aparece bem referenciada cem anos mais tarde (Pintor, 1981). O Santuário encontra-se num cenário de montanha, dominado por um imponente penhasco. Neste território, a organização tradicional do espaço obedecia a uma alternância sazonal, pois havia uma residência para o inverno (inverneiras) e outra para o verão (brandas). Este sistema influenciou a permanência de práticas associadas à religiosidade popular, bem como um grau de familiaridade entre as comunidades vizinhas, onde vigorava o mesmo sistema de residência. Segundo as narrativas mais comuns, aqui, a 5 de agosto de 1220, a Senhora das Neves terá aparecido: ou a uma pastorinha do lugar de Rouças chamada Domingas Gregório, a dar crédito a uma narrativa apresentada por Frei Agostinho de Santa Maria em 1712 (Santa Maria, 1712); ou a um criminoso de Ponte de Lima que se tinha refugiado neste lugar (Costa, 1869). Na oralidade surgem estas duas versões, recolhidas com habitantes do lugar: - “Contavam que aparecera aqui Nossa Senhora. Apareceu numa pomba à pastorinha, que andava por aqui, ela transmitiu-lhe que queria que lhe fizessem uma ermida, uma capelinha. Ela era ali de Rouças e depois disse lá às pessoas que falara a Nossa Senhora e as pessoas não acreditaram. (…) Então, ela (Nossa Senhora) pediu-lhe que dissesse aos habitantes de lá que lhe trouxessem uma senhora que estava entravada há 18 anos na cama. Que lha trouxessem aqui que a curava e assim foi. É Domingas Gregória (sic), a senhora que estava entravada na cama. E pronto, daí começou o santuário. Começaram a fazer o santuário porque aqui não existia o lugar, não existia nada. Era só montanha onde ela vinha com o rebanho, com cabras, pois era o que andava mais (lojista, 60’s, Peneda).” - “A primeira que contam muito é a da história do criminoso, que ele até está no altar. Nossa Senhora lhe apareceu na montanha, lá em cima na serra e lhe deu perdão. Daí ele estar no altar e a outra história é, onde está a Igreja, que Nossa Senhora apareceu a uma pastorinha e que pediu que trouxessem cá uma senhora. Aí é que se realizou o milagre (lojista, 30’s, Peneda).” Contudo, entre os romeiros, vão-se misturando outros elementos narrativos, característicos desta tipologia de aparições: - “Eu ouvi dizer que ela que estava a tecer uma meadinha de ouro ali no penedo, chamam o Penedo da Meadinha. E, dizem, que Nossa Senhora apareceu. Estava a estender umas meadinhas de ouro. É o que eu ouço dizer, mas não sei. E que falou para umas meninas, que estavam lá. Que queria que lhe fizessem aqui uma capela, foi o que me disseram que eu não vi (romeira, 90’s, Bravães).” - “Eu não sei. Por exemplo, dizem que a Senhora da Peneda lavava as meadinhas lá em cima, diz que não é certo, que não é verdade, não sei se é ou não é. (…) E, diz, que era Nossa Senhora que corava lá as meadinhas. No livro - nunca li se é verdade se é mentira - diz que não diz nada disso, por isso a gente já não sabe se é verdade se é mentira. Outra também que me contaram é que a Senhora da Peneda tem a capela aqui porque ela é irmã de S. Bartolomeu, de vários santos, são 6 ou 7 irmãos: Senhora do Sameiro, Senhora do Alivio, mais não sei quantos. E um deles que lhe disse assim: ‘- Ó Maria, tu que vais para tão longe… porque não ficas na cidade como nós?’ E ela que lhe respondeu ‘- Eu vou para longe mas hei-de ser tão visitada como vós!’. E, realmente é verdade, mas no livro não sei se está, se não está, que eu não o li (tendeira, 60’s, V. N. de Muía).” - “Até porque a minha avó contava que, com a Senhora da Peneda, eram 7 irmãs: era a Senhora da Peneda, a Senhora da Penha, a Senhora das Dores, Santa Rita… não me lembra o nome das outras, mas eram 7. E, então, nenhuma queria ir para a Peneda. E a Senhora da Peneda disse: ‘- Eu fico na Peneda.” A Peneda era um local feio, montanhoso e então ela disse: ‘- Sou eu a ficar. Vou ser eu, a mais pequenina, a ficar, mas podem acreditar, vou ser eu a mais visitada.’ E sim, ela é a mais visitada, tem outra força, sim (romeira, 50’s, Soajo).” Existe uma consciência da incerteza da veracidade da narrativa passada pelos antepassados, nomeadamente face ao que esteja registado com autoridade nos “livros”. Essa consciência dever-se-á também à dinâmica das interpretações do próprio clero, nomeadamente do anterior pároco que interpretava a aparição como tendo sido não de Nossa Senhora em si, mas sim de uma estátua que a representa: “A versão dele (…) é que a pastorinha encontrara uma imagem em pedra, essa imagem até foi roubada da sacristia há mais de 100 anos. Para ele a pastorinha é que encontrara a imagem (lojista, 60’s, Peneda).” A opção do atual pároco-reitor é a de valorizar a mensagem religiosa mais do que as narrativas da aparição: - “Agora, a questão não está necessariamente aí, está no que ao longo dos tempos se foi desenvolvendo. (…) O esquema é absolutamente comum aos evangelhos, à liturgia, não está fora da liturgia, por isso, se estivesse não poderia existir. Segundo, mais do que estarmos à procura de estarmos a compreender o momento fundador, de encontrarmos a veracidade histórica, ou o quer que seja, o que nos importa é a mensagem que nós podemos efetivamente passar, que passou ao longo dos séculos e continua a passar, mais do que andarmos à procura do elemento fundador, que se estabelece entre a memória histórica, o mito ou a lenda. Quer dizer, isso depois nós podemos atribuir-lhe a categoria que nós quisermos, consoante a dinâmica que estamos a fazer. Para mim, enquanto Reitor do Santuário é a aparição, é o relato da aparição, ponto. Não entro noutro tipo de discussão, porque não é esse o meu objetivo. O meu objetivo é fazer com que esse elemento fundador, me ajude hoje, a continuar a ser um marco de referência, para as pessoas, espiritualmente, neste tempo (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” A Romaria, de dimensão local e regional, é frequentada sobretudo por romeiros oriundos de diferentes partes do concelho de Arcos de Valdevez, dos concelhos vizinhos (Melgaço, Monção e Ponte da Barca) e das localidades mais próximas na Galiza (com particular destaque para Lobios e Ourense). Trata-se de uma celebração que tem uma forte presença no sentimento de pertença regional das populações locais e que anualmente realizam os rituais, com particular destaque para o cumprimento da novena ou da meia-novena. Os romeiros oriundos dos concelhos vizinhos acorrem sobretudo no dia 6 de setembro, numa prova de fé marcadamente influenciada por um contexto social e ecológico definido por uma agricultura e pecuária de subsistência, a que se junta a construção civil. Mesmo na atualidade, onde grandes transformações socioeconómicas e uma fortíssima emigração alteraram os laços sociais e as relações com as atividades agropecuárias, a comunidade, pelo seu isolamento, tem dificuldade em dialogar com os novos estilos de vida. Esta é uma realidade que fica patente nas tensões sociais e culturais decorrentes da sua inclusão no Parque Nacional da Peneda-Gerês. A Romaria promove a sociabilidade e a coesão social local, na medida em que possibilita o encontro, o reencontro e o diálogo entre os romeiros de diferentes freguesias e concelhos da região. A viagem, em particular quando feita a pé (agora menos comum), proporciona também a troca de experiências e, no caminho, contam-se algumas peripécias das romarias passadas e das viagens que outrora se faziam. Tal como no passado, a Romaria da Senhora da Peneda continua a ser um importante lugar para estabelecer relações de enamoramento, em particular durante o arraial, na noite do dia 6 para 7 de setembro, por via da sua sobejamente conhecida capacidade de reunir pessoas no Santuário. De maneira semelhante à maior parte das romarias tradicionais (Sanchis, 1992), na Romaria da Senhora da Peneda estão reunidos muitos dos sentidos expressos na celebração festiva de devoção popular: louvor aos santos padroeiros; pedidos ou agradecimentos de cura e proteção; manifestação de coesão social e de pertença comunitária; bem como a aliança entre o sagrado e o quotidiano, no momento de exceção e de relativa quebra com o dia-a-dia que é uma festa para onde se transfere a vida familiar, mesmo que temporariamente (Campelo & Cavalheiro, 2017). Percursos e estadia Havia basicamente nove caminhos para chegar a pé ao Santuário da Peneda. Os mais usuais eram: Lagarto, Canto do Corno, Saramagueira, Bicos ou Gorbelas, Garganta de Eiró, Aveleira/ Bouça dos Homens, Felgueira Ruiva, Peito do Lagarto e Miradouro. Alguns destes carreiros juntavam-se em determinados pontos e outros davam acesso direto ao Santuário. O costume, no passado, de fazer a viagem a pé pelos caminhos e carreiros da serra constitui uma das características mais fortes da experiência da Romaria, destacada pelas populações que a frequentam. O percurso era penoso e, quase sempre, demorado até chegar ao lugar da Peneda. Grande parte da “magia” colocada nesta experiência definia tanto a vontade de fazer o percurso, como o sentido do sacrifício prometido, em paga da graça recebida. O percurso, como a vida quotidiana, era realizado em grupo: - “Era um dia de devoção, mas não só, também de diversão, de convívio. Era um dia que algumas pessoas prometiam ir descalças e faziam o percurso do Soajo, ou até de mais longe. Descalças, por caminhos bem rudes, bem agrestes a pé, que algumas pessoa chegavam lá com os pés todos em ferida, mas a devoção fazia-as mexer, era mais forte. E pronto, e algumas iam a pé. As que iam a pé, e eu também fui a pé que eu também cheguei a ir, era um dia de devoção e de convívio, levávamos uma merenda… (romeira, 50’s, Soajo).” - “Íamos todos. Daqui da freguesia do Soajo tínhamos dois dias: os do Soajo, iam por exemplo no dia 5, dançavam no dia 5 à noite, a maior parte deles. Nós nunca fomos no dia 5, nós (Várzea) íamos sempre no dia 6. Saíamos daqui no dia 6 de manhã, levávamos a merenda, merendávamos ao meio-dia, comia-se o resto que sobrava à noite e, depois, à noite era baile toda a noite e no outro dia vínhamos embora (romeiro, 80’s, Soajo). A caminho do Santuário, a diversão pontuava nos locais por onde os romeiros passavam: - “Vinha a pé muita gente. (Investigadores: “Em grupos, não é?”) Vínhamos, vínhamos. Parávamos ali no Soajo. (Investigadores: “Eu ouvi dizer que no Soajo paravam ali no Eiró, no Largo do Eiró, a dançar e a cantar.”) “- Sim, sim (romeira, 90’s, Bravães).” - “Era no Eiró (largo no Soajo). Havia a romaria da Peneda, vinham os romeiros por aí fora a cantar, passavam. Vinham a pé, às vezes de longe, de Vila Verde e outros sítios. À noite pernoitavam ali (…) e fazia-se ali a dança. Era como uma romaria. A gente quando ia para a Peneda… quando era para ir no dia 5, quando era para vir no dia 7, porque agora (…) vão e vêm com o carro, mas dantes era tudo a pé e depois descansavam aí à noite e ao ser dia ou quase ao romper o dia, tornavam a ir para cima (romeira, 80’s_1, Soajo).” Na atualidade, apesar das comunicações terem ficado extraordinariamente mais fáceis, ainda são frequentes as referências a esta realidade passada: - “Nós vínhamos a pé do Lindoso pela barragem fora. Agora é que não, vem-se de carro, autocarro, taxis. Mas antigamente era… e trazia-se tudo às costas, para dormir, a roupa das camas, colchões (…). Agora as condições são muito boas, já não é preciso vir com o colmo às costas (…). Cheguei a vir a pé com as panelas às costas (romeira, 60’s, Lindoso).” Todavia, a maior parte dos participantes na Romaria tem hoje a possibilidade de se deslocar ao Santuário de automóvel particular ou de autocarro e não é forçada, como acontecia há décadas, a permanecer na Peneda para poder acompanhar diariamente a novena. De facto, hoje, o número de devotos que permanecem os 9 dias da novena só representa uma parte mínima da totalidade dos romeiros: - “Não é a mesma coisa, quer dizer, hoje quem vêm, mesmo as pessoas que vêm a pé, os grupos que vêm a pé, não vêm com toda a roupa, toda a comida, tudo o que precisavam para estar aqui nove dias. Quanto muito, vêm com um pequeno lanche e depois ao chegar aqui têm transporte que os levam de regresso. Naturalmente que a dinâmica é completamente diferente (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro). Embora as deslocações para fora do espaço da vida quotidiana sejam hoje menos excecionais do que eram há décadas, para uma parte considerável da população da região as romarias continuam a proporcionar apreciadas oportunidades de passeio. No caso da Romaria da Senhora da Peneda, a viagem faz-se agora de automóvel ou numa camioneta alugada por uma organização (paróquia, associação recreativa, etc). Todavia, ainda há romeiros que percorrem os caminhos da serra (a pé ou a cavalo), seja porque apreciam a possibilidade de ter uma experiência espiritual numa envolvente natural, seja porque querem reavivar uma herança cultural e tentam juntar o sentimento religioso ao sentido patrimonial e lúdico. Para o cumprimento da novena ou meia-novena, no dia 30 de agosto, os romeiros que têm necessidade de ficar alojados nos Quartéis ou de alugar casas particulares começam a instalar-se, trazendo o que precisam para um mínimo de conforto durante a sua estadia. A existência dos Quartéis destinados à permanência dos romeiros durante as cerimónias religiosas constitui uma característica comum a outras festas religiosas em locais serranos isolados, ou onde a distância de origem dos romeiros não possibilita conciliar a frequência da novena com a pernoita nas suas próprias casas. Existem aqui Quartéis tradicionalmente destinados às freguesias dos quatro concelhos que ficam próximos ao Santuário. Até há poucos anos, os romeiros usavam os Quartéis correspondentes às suas freguesias de origem. Os Quartéis eram uma das principais estruturas de apoio aos romeiros: - “As pessoas tinham que pernoitar, tinham que dormir, tinham que comer e por isso o Santuário tinha um moinho para poder moer os cereais, o Santuário tinha um matadouro onde os animais eram abatidos durante as festas. Quer dizer, havia toda uma logística que era montada de modo a poder responder às necessidades básicas daquele tempo, porque se fosse hoje isto já não corresponderia ao mesmo (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” - “Nós, antigamente, quando vínhamos para esses Quartéis, parte das vezes nem cabíamos no Quartel. Era uns para cima, outros para baixo, ali gente enorme (romeira, 60’s, Lindoso).” - “Tudo cheio, tudo cheio” (romeira, 30’s, Lindoso).” - “As pessoas falam muito como, antigamente, vinham para aqui. Que vinham com as coisas às costas, compravam a palha para fazerem os colchões e dormiam todos a monte e fé em Deus - era como eles diziam. E, então, há os abrigos que as pessoas dormiam todas juntas. Então cada Quartel pertencia a uma freguesia (lojista, 30’s, Peneda).” Com a recuperação de um dos Quartéis, em 2022, transformado em “Abrigo de Montanha”, o complexo do santuário permite, agora, alojar confortavelmente 28 pessoas, sejam elas romeiros da Peneda, da Via Mariana, turistas ou desportistas que praticam escalada e outras actividades de montanha no Parque Nacional. Isto, naturalmente, a par do aluguer de casas privadas e do Hotel da Peneda. A permanência destas pessoas altera a demografia do lugar da Peneda (onde, na atualidade, moram cerca de 25 habitantes) durante um período curto mas suficiente para que novas sociabilidades se afirmem, um facto que conferia e confere uma envolvência particular aos eventos celebrativos religiosos e profanos. - “As pessoas falam muito nisso, que sentem saudades disso, embora as condições sejam melhores agora (…) - do convívio, é. Não havia luxo mas eram muito felizes. Agora têm o luxo mas não têm aquele convívio que tinham antigamente, não é, mas é claro têm as condições melhores e vivem melhor e não têm que vir com as coisas às costas (lojista, 30’s, Peneda).” - “Prometeram vir um período de tempo, que funciona como um retiro, um tempo completamente distinto do tempo habitual (…) A dinâmica, aí, já é completamente distinta porque se cria aquele ambiente de grupo, de pertença... o que depois possibilita uma certa familiaridade e proximidade (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” Esta permanência prolongada no Santuário está também relacionada com modelos e comportamentos religiosos que implicavam um afastamento temporário do ritmo de vida quotidiano e que desapareceram progressivamente ao longo da segunda metade do século XX. Neles, incluíam-se questões de género. - “A maioria, que estava nas novenas, eram mulheres. Isso tinha duas vertentes fundamentais que já estive muitas vezes a pensar sobre isso e que nós às vezes nos esquecemos. E que é a libertação feminina que acontecia durante uma semana. Porque, qual era o marido ou namorado ou pai que não permitia à filha cumprir uma promessa de estar nove dias fora? Isso não estava em questão. E, por isso, dava-lhes (às mulheres) a possibilidade de durante aqueles dias estarem fora. Estarem fora para se ligarem mais com Deus, mas ao mesmo tempo para se libertarem de todo o peso da casa, de todas essas dinâmicas em que estavam presentes (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” Rituais O programa da Romaria tem-se mantido estável nos últimos anos, excetuando o ano atípico de 2020. - “Atempadamente, eu faço um ajuste do programa. O programa basicamente está montado, tenho um esquema de novena que já vem desde 2010. O esquema basicamente é aquele, com pequenos ajustes do dia, das horas, de elementos que vamos introduzindo (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” Os nove dias, de 31 de agosto a 8 de setembro, estruturam-se de uma formal similar à seguinte: Programa de 2022 Dia 31 12:00h Eucaristia; 17:00h Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas; 21:00h Oração de Completas. Dia 01 09:30h Oração de Laudes, Eucaristia e Exposição do Santíssimo; 17:00h Oração de Vésperas e Procissão Eucarística; 23:00h Oração de Completas e Encerramento da Exposição do Santíssimo. Dia 2 09:30h Oração de Laudes e Eucaristia; 17:00h Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas; 21:00h Via-sacra. Dia 3 09:30h Oração de Laudes, Eucaristia pelos Benfeitores do Santuário; 11h30 Inauguração do elemento escultórico e da exposição "A Árvore”; 12h00 Apresentação do Plano de Valorização do Santuário de Nossa Senhora da Peneda; 16h00 Eucaristia; 17h00 Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas; 21h00 Concerto "Músicas à Senhora", com Helena Sarmento. Dia 4 09h30 Oração de Laudes e Eucaristia; 12h00 Eucaristia; 16h00 Eucaristia; 17h00 Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas (Atuação do Rancho Folclórico das Camponesas da Vila do Soajo); 21h00 Oração de Completas. Dia 5 09h30 Oração de Laudes e Eucaristia; 12h00 Eucaristia em Castelhano, presidida pelo Bispo de Tui-Vigo D. Luis Quinteiro Fiuza; 16h00 Eucaristia; 17h00 Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas; 21h00 Bênção de Gaitas de Foles, no Santuário, seguido de desfile até ao recinto do baile; Atuação da Banda de Gaitas de São Tiago de Cardielos. Dia 6 09h30 Oração de Laudes e Eucaristia; 12h00 Eucaristia; 16h00 Eucaristia; 17h00 Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas; 21h00 Bênção de Concertinas, no Santuário, seguida de desfile até ao recinto do baile; 22h00 Hino Akathistos em Honra da Virgem, Mãe de Deus; Baile Popular. Dia 7 09h30 Oração de Laudes e Eucaristia; 15h00 Eucaristia e Celebração da Santa Unção; 21h00 Procissão de Velas. Dia 8 11:00h Festa da Natividade de Maria (Eucaristia e Procissão). Os principais rituais celebrados na Romaria da Senhora da Peneda são: Novena A comunidade, os vizinhos mais próximos e os que estão hospedados nos Quartéis participam em todos os preceitos religiosos que compõem a novena, com particular destaque para a eucaristia. Atualmente, quem dispõe de automóvel e não reside demasiado longe desloca-se todos os dias até à Peneda para a celebração da novena. A afluência de quem pernoita e dos visitantes diários para esta preparação transforma a vida do lugar da Peneda e mesmo da freguesia da Gavieira, que ganha residentes temporários e clientes para os cafés e restaurantes. Para os participantes, este fator constitui um elemento fundamental de uma experiência comum, num local remoto e isolado. - (Investigadores: “Como é que são estes dias?”) “- Magníficos! Não pode ser melhor porque a gente tem uma paz que não se encontra em lado nenhum. Paz na alma e paz no corpo (romeira, 60’s, Soajo).” No dia 31, os rituais contam com cerca de 80/ 90 pessoas, número que depois vai subindo até ao apogeu dos grandes dias. Para muitos romeiros esta suspensão nas suas vidas quotidianas que a Igreja Católica procura que funcione como um retiro. Representa uma oportunidade de uma maior aproximação à Virgem milagrosa. - “Em primeiro lugar, o lugar onde nós nos encontramos convida naturalmente a estarmos de forma mais tranquila. Estamos no meio da natureza, depois as pessoas ao saírem de casa saem do seu ambiente e por isso encontram um ambiente completamente distinto. E, depois, nós proporcionamos, durante nove dias, um retiro popular, espiritual em que normalmente as pessoas têm a possibilidade de passar pela oração pessoal, pela oração comunitária, por celebrações belas e ao mesmo tempo por celebrações mais simples e que envolvem todo o espaço do santuário, desde o pórtico até à Igreja propriamente dita, ao santuário. Quer dizer, tudo isso cria um cenário completamente distinto e tranquilo. Imaginemos o que é, numa noite, se fazer o exercício da Via-sacra nas capelas, num ambiente completo de silêncio, de contraste entre a luz e a sombra, entre os textos que são levados às pessoas… a refletir, a meditar. Naturalmente que isso cria um cenário distinto e, por isso mesmo, pacificador, no sentido da pessoa estar de bem consigo mesma. Consegue estar em silêncio, consegue estar em oração, consegue experimentar lugares (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro)”. Os participantes das celebrações diurnas são sobretudo pessoas acima dos 65 anos, sendo pouco comum encontrar alguém que pareça ter menos de 50. Mas o convívio, a partilha de informação e de saberes, o espaço comum - no Quartel, no Largo do Terreiro, ou dentro da Igreja - são também dimensões sociais e afetivas de uma experiência religiosa que junta pessoas geograficamente distantes. - “Para mim, a romaria foi sempre um ponto de encontro. As pessoas vinham para aqui os nove dias. Isso acarretava o quê? Acarretava que as pessoas mais idosas vinham à novena, era a parte mais religiosa digamos, mas depois com elas traziam as netas, as filhas e isso fazia com que uma coisa puxasse a outra. A romaria tornava-se mais abrangente. Havia os namoricos, havia os bailes, havia os passatempos, não é (confrade, 60’s, Gavieira)?” Enquanto as esposas assistem à missa dentro da Igreja, no exterior o som da celebração, emitido por altifalantes, serve de pano de fundo às conversas dos maridos: falam dos animais, das colheitas… - “É que os homens acham que não têm alma para salvar, mas prontos, olhe. É sempre mais mulheres é. As mulheres vão e rezam por eles. (Eles) Não precisam de se ocupar muito (lojista, 60’s, Peneda).” Distinta das outras orações católicas, que podem ser executadas sem um compromisso diário, a novena é uma celebração ritual enquadrada numa estrita repetição ao longo de nove dias, destinada a obter ou agradecer favores especiais ou graças. Diversas interpretações, ligadas ou não aos textos bíblicos, têm sido propostas, ao longo dos tempos, para o significado do número 9. Em todo o caso, uma novena requer humildade, confiança e perseverança, três importantes qualidades para a eficácia das orações. - “Elas (amigas e vizinhas que não vêm à novena) dizem que vimos de férias, mas elas não vão lá baixo, não fazem a romaria. A gente vai lá baixo duas vezes por dia, vem para cima, vai ali ao mosteiro (Igreja), vai às missas. Normalmente são 7 terços rezados para as novenas, 7 por dia, fora as orações, os ofícios e as missas (romeiras: 30’s e 60’s, Lindoso; 60’s Entre Ambos-os-Rios).” Durante os nove dias, uma hora antes do início da novena, um dos membros da Confraria de Nossa Senhora da Peneda toca o sino para alertar os moradores do lugar e todos os romeiros, que brevemente terá início esta prática ritual. Este momento pode ser entendido como um sinal de reflexão espiritual e de seriedade, no qual não deve haver lugar para conversas nem distrações. Todos os anos, o ritual da novena tem início entre o meio-dia e o meio-dia e meio do dia 31 de agosto e termina no dia 8 de setembro. Importa dar nota de que os rituais que integram a novena são a horas distintas durante os 9 dias. Contudo, o programa tem mantido a mesma estrutura ao longo dos últimos anos. Quando nas missas há pregações, estas envolvem os devotos, sendo que o padre pregador é apreciado pela sua performance e capacidade de dar a conhecer a vida da Virgem Maria, aqui sob a invocação da Senhora da Peneda. A confusão entre Maria, mãe de Jesus, e as várias invocações que ela assume, espalhadas pelo território, cria um contexto de politeísmo popular (lembrar a narrativa das sete irmãs) que os pregadores procuram incessantemente mudar durante as missas da romaria. - “Essa questão das pessoas descobrirem ou compreenderem que a Nossa Senhora é única, a mãe de Jesus, e depois nós lhe atribuímos os vários nomes, isso é fruto de uma catequese que tem de ser feita. (…) É uma oportunidade e ao mesmo tempo uma dificuldade, porque para as pessoas mais velhas, nós estamos, às vezes, a tirar-lhes algo (…). Para as mais novas, muitas delas, às vezes, como não aprofundam suficientemente a catequese, acabam por nem sequer chegar a entrar muito nesta dinâmica (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” Procissões Ao longo dos nove dias de celebrações realizam-se várias procissões. Saem da Igreja, descem o Escadório das Virtudes e passam pelo Largo do Terreiro, antes de percorrer os vários lanços de escadas entre as 20 capelas da Via-sacra. Depois de dar a volta ao fundo do escadório no Largo do Portório, fazem o percurso inverso, subindo até chegarem novamente à Igreja. A Procissão do Adeus que se realiza no dia 8 de setembro, no final da missa, tem um percurso diferente das restantes: sai da Igreja, desce o Escadório das Virtudes, dá a volta no chafariz que está localizado no Largo do Terreiro, sobe o Escadório das Virtudes, circunda a Igreja uma vez e entra. A procissão conta com o andor da Senhora da Peneda, representantes da Igreja e vários estandartes alusivos à Confraria, sendo no final seguida por romeiros e outros participantes, sobretudo idosos, que vão acompanhando as orações. - “Às 4 horas vamos à Senhora das Dores rezamos outro terço, vamos para o mosteiro (Igreja) rezamos mais dois terços no mosteiro e se temos tempo de fazer a Via-sacra antes dos atos religiosos faz-se senão fazemos ao fim. E, depois, vamos com a procissão até lá em baixo. A procissão lá baixo e vem-se para cima, quando está bom tempo… (romeiras, 60’s e 30’s, Lindoso)” Quando a procissão passa, os vendedores no Largo do Terreiro param de vender e, pelo menos, um ainda tapa as mercadorias com um pano, como no passado: - “Por tradição, antigamente era assim e nós continuamos com a mesma tradição. O padre daqui (o anterior pároco) ele gostava que a gente tapasse tudo (tendeira, 60’s, Vila Nova de Múia).” Lista das Procissões em 2022 Dia 31: 17:00h Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas Dia 01: 17:00h Oração de Vésperas e Procissão Eucarística Dia 02: 17:00h Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas Dia 03: 17:00h Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas Dia 04: 17:00h Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas Dia 05: 17:00h Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas Dia 06: 17:00h Procissão com o Rosário e Oração de Vésperas Dia 07: 21:00h Procissão de Velas Dia 08: 11:00h Festa da Natividade de Maria (Eucaristia e Procissão) Promessas Na Romaria da Peneda, além da participação nas celebrações incluídas no programa oficial, o devoto realiza diversos rituais que visam pagar uma ou várias promessas, feitas em geral em benefício de si próprio ou de alguém afetivamente próximo. Mantendo-se as promessas relacionadas com a saúde, outras tipologias não deixam de refletir fielmente as transformações da sociedade. Pede-se, cada vez mais, emprego, a entrada na universidade, o sucesso nos estudos ou ganhar o euromilhões e, cada vez menos, boas colheitas ou uma boa-hora no parto. Desaparecidos, por completo, estão os pedidos relacionados com doenças de animais ou de bom regresso da Guerra do Ultramar (ou de não ida). - “É mais promessas de pessoas que estão a ter problema de alguma doença é algo que a Virgem sempre muito milagreira (romeira, 30’s, Lobios).” - “Aqui é mais as coisas impossíveis (romeira, 60’s, São João de Vila Chã).” - “Gostamos muito de vir à Virgem da Peneda pedir, hoje trazemos aqui no coração um pedido para uma pessoa importante para nós e esperamos que conceda saúde a essa pessoa. (romeira, 30’s, Lobios).” - “Promessas de doenças. Por exemplo, nós temos corações, temos figuras interiores do corpo, não é? Nós alugamos muito orgãos: coração, fígado, estômago. Estamos sempre a alugar isto. As pessoas sofrem dessas doenças e então prometem. E, vê-se cada vez mais as pessoas a virem alugar figuras de cera. (…) Elas já escolhem um altar que tenha mais a ver com o que pediram e deixam lá (lojista, 30’s, Peneda).” - “É andar de joelhos, figuras de cera, dinheiro… ouro também ofereciam muito, agora já não há essas promessas. Mas as pessoas ainda prometem, principalmente corpos de cera. (…) Não queimam, deixam dentro da Igreja. Depois nós recolhemos e está sempre a render para o santuário, até que se quebre (lojista, 30’s, Peneda).” Pagar promessas, assistindo ou não aos atos religiosos da novena, é a primeira ação levada a cabo pelos devotos quando chegam ao Santuário. Os romeiros circundam a Igreja, com ex-votos na mão, rezam o terço em surdina e/ ou vão rezar no altar-mor onde está a imagem da Senhora da Peneda. Por outro lado, todos os dias, é logo ao romper da aurora que muitos rezam junto da capela da Senhora das Dores e a circundam, rezando em surdina. Alguns colocam uma pedrinha em frente à porta principal a cada passagem, para não se equivocarem no número de voltas. - “Eram as pedrinhas para contar as voltas, para não se esqueceram. Eu agora conto pelos dedos. Como aquilo (capela da Senhora das Dores) é pequenininho, a gente enganava-se. Eu aqui, cada volta no mosteiro (Igreja) é um mistério. Conto pelo terço. (…) Há gente que não conta, pega em pedrinhas. Nós ao principio também púnhamos. (…) Quando estivessem nove estava a novena paga (romeiras: 60’s, Soajo; 60’s, Arcos de Valdevez).” Dar nove ou mais voltas ao redor de um local de culto, em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, é uma prática comum que procura guardar a sacralidade e impregnar-se dela. Estas voltas não têm horário específico, mas o que se torna deveras importante é que sejam cumpridas consoante o que se prometeu. Na Peneda, muitos romeiros realizam esta ambulação ritual à Igreja enquanto esperam pelas celebrações oficiais, enquanto outros, ajoelhados ou em pé, rezam em surdina no interior do templo. O ritual, que envolve um movimento ao longo de um itinerário previamente estabelecido começando e terminando no mesmo local e que define e perpetua a área destinada ao culto, pode ser entendido como uma reiteração da peregrinação, desta vez em escala reduzida. O ritual de pagamento da promessa, circundando a Igreja, deixando nela esmolas, velas no queimador de cera, alugando ex-votos na Casa da Confraria, é uma ação deveras importante e muito comum de se observar no decorrer da Romaria. É de iniciativa individual, mas pública, pois realiza-se à vista de todos, o que lhe confere uma forte dimensão coletiva, um valor social. Em simultâneo, manifesta o caráter individualizado da relação estabelecida entre o devoto e a Senhora da Peneda. O pagamento de promessas é um ritual com uma estruturação mínima: cada um pode realizá-lo quando quiser (em geral à chegada ao Santuário), dedicando-lhe o tempo que desejar. - “As promessas têm sempre uma perspetiva muito alargada, muito abrangente. Por norma, as pessoas vêm participar nos atos litúrgicos da novena. Depois há promessas de todo o género. Cada vez menos ofertas em ouro; ofertas da cera por alguém; são muito variadas. Não consigo identificar um padrão. O padrão mais identificável é o da participação na novena. Depois existem as promessas de joelhos, percorrer à volta do Santuário (pároco, 30’s Castro Laboreiro).” Na ausência de atitudes institucionais prescritas, cada um faz as preces e orações que entende e escolhe a sua postura corporal. Contudo, há devotos que procuram aconselhamento com pessoas mais velhas que consideram, pela experiência acumulada, deter o modo correto (leia-se tradicional) de pagar a promessa eficientemente. Assim, uma pessoa que vem pela primeira vez e quer fazer a novena “à antiga”, procura pessoas experientes, que vêm habitualmente à novena, para saberem o que é que têm de fazer. Isto acontece, por exemplo, com duas senhoras do concelho de Ponte da Barca, que frequentam a Romaria há mais de 40 anos, a quem os iniciantes perguntam o que têm de fazer, quantas voltas à Igreja e de que modo. - “Algumas pessoas perguntam. A gente, o que sabe, responde (romeira, 60’s, Lindoso).” - “Algumas, que chegam de novo, vêm-me perguntar como é que fazem. Eu tento arranjar-lhes sempre alguém que conheça as tradições para as ajudar (lojista, 30’s, Peneda).” Para além dos rituais particulares que cada um faz, há quem cumpra uma novena inteira e assista a todas as celebrações que estão no calendário e há outras pessoas que prometem, durante os 9 dias, participar apenas na celebração das Eucaristias. Como noutras romarias, os usos do corpo, manifestados pelos fiéis da Peneda, são meios expressivos de categorias morais. Muitas vezes, além da compra de cera para queimar ou depositar na Igreja e da oferta de dinheiro à Senhora de Peneda, as promessas envolvem algumas mortificações: comer apenas pão e beber água, respeitar algum tipo de jejum (como comer apenas uma refeição diária), cumprir a novena na íntegra ou metade desta, transportar o andor nas procissões, ambular a Igreja de joelhos. - “A pão e água é só comer pão e beber água nos nove dias ou quatro dias e meio (romeira, 60’s, Lindoso).” - “Uma senhora (…) subiu de joelhos, desde o fundo. Sem nada nos joelhos. Depois nós tínhamos um posto médico e (ela) foi lá para eu lhe arranjar álcool para curar os joelhos. E, depois, eu disse-lhe: ‘Ah, você aleijou-se toda’ e ela disse-me ‘O sacrifício valeu a pena porque Nossa Senhora ajudou-me no que eu precisava’ (lojista, 30’s, Peneda).” - "Ía, de manhã, como de noite, lá baixo ao último escadório e vinha de joelhos até aqui até ao altar. E, na primeira novena, os joelhos esfolaram-se um bocado e eu disse que não tornava a cá vir para cumprir nova novena se tinha que cá vir 9 anos, não podia. Mas cheguei a amanhã, apertei e fui e sarei. Estava mais sã quando cumpri a novena, todos os dias de joelhos, lá de baixo aqui a cima, do que estava quando comecei. Foi um milagre muito grande que a Senhora da Peneda fez. Porque se eu estava doente e melhorei e sempre todos os dias, os 9 dias. Tudo de pedra por aí acima e no fim ainda ia fazer a novena que se costuma fazer (romeira, 90’s, Bravães).” A prática de ambular a Igreja de joelhos, ainda muito viva na década de 90 do século findo, vai paulatinamente desaparecendo através da ação da Igreja Católica que aconselha o abandono de práticas de penitência. - “Continuamente, nós vamos alertando para a necessidade de encontrar outras formas de fazer promessas e de viver a fé. (…) É evidente que, se me aparece alguém já com dificuldades de mobilidade e que tem uma promessa para fazer de joelhos à volta do Santuário, eu tento que a pessoa encontre outra forma. Agora, para mim, (…) há uma coisa que eu tenho sempre presente que é, a pessoa,(…) deve ser claro o que ela efetivamente quer, senão em consciência a promessa vai ficar por cumprir (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” Proibida por normativa da diocese de Braga, está já desaparecido o modo de pagar promessas em que o crente era transportado dentro de um caixão. Esta prática, existente pelo menos desde o final do século XIX até à década de cinquenta do século XX (Pinto, 2002), está ligada a promessas feitas quando a vida da pessoa estava em risco e subsiste hoje no uso de mortalhas pelos crentes. - “Houve uma senhora que me contou que, uma vez, prometeu vir dentro do caixão. Ía, dentro do caixão, na procissão e vinha. Lembro-me de ela dizer que foi uma filha que esteve à beira da morte. (…) Não ia ser muito bom (hoje) ir fechar a Igreja e ver lá um caixão. (…) Não, já não é do meu tempo. É antiga essa tradição (lojista, 30’s, Peneda).” Atos devocionais desta natureza constituem um percurso através do qual o romeiro se vai consagrando. Vai consumido as suas forças físicas mas considera que, em simultâneo, vai alcançando um novo estado moral, purificando-se e aproximando-se da Senhora da Peneda. O ato mais próximo com a Senhora, que os devotos não dispensam, é o momento em frente à imagem da Virgem, particularmente no dia 6 de setembro, dia do Hinos Akathistos em Honra da Virgem (um dos dias em que se regista maior afluência de pessoas). Durante este ritual, a imagem é apresentada a cerca de duas centenas de fiéis que, um a um, a beijam. Uma fila ceremonial forma-se na Igreja enquanto que, nessa noite, no fundo do Escadório das Virtudes, largas centenas de pessoas dançam, cantam e bebem num aparente caos musical e sensorial. Não é possível afirmar que a devoção à Senhora da Peneda seja uma exclusividade feminina. No entanto, ao longo dos nove dias, são sobretudo mulheres que cumprem a novena ou outras promessas. Este facto corresponde ao lugar das mulheres na sociedade camponesa do Alto Minho, cujos traços, embora hoje diluídos, continuam a nortear diversas dimensões culturais da região. Trata-se também de uma característica conhecida do catolicismo português no presente, marcado por uma predominância feminina na expressão pública da prática, nas suas vertentes populares. O forte envolvimento feminino nas manifestações de agradecimento e nos pedidos de proteção é uma expressão de alguns dos papéis de género dominantes. Como sustenta Orsi (1996: 190), as mulheres são ensinadas a absorver “as ansiedades, necessidades e angústias de outros em si próprias, nos seus corpos e nos seus corações.” As conversas com mulheres presentes no Santuário deixam transparecer este espírito altruísta: “vim fazer uma novena pelo meu marido”, “vim de novena pelo meu filho e ainda pelo netinho e genro”, “estou a cumprir novena pelo meu pai.” - “Rezamos mais, pedimos mais. (…) Os espanhóis vêm mas vão com as mulheres à Igreja. O português não é assim tanto. O espanhol, o homem, vai e às vezes diz ‘Vamos primeiro ver a Virgem, depois é que vimos fazer as compras se for preciso’ (lojista, 60’s, Peneda).” - “Eu acho que as avós devem continuar a trazer as netas. Acho que são tradições que ficam na memória e eu vejo muitas jovens que passam por aqui e dizem: ‘Ai! eu vinha para aqui com a minha avó (lojista, 30’s, Peneda).” - “Uma pessoa notava que era só mesmo o feminino, era realmente a parte feminina que vinha de novenas. Na parte dos homens, do masculino, esse vinha mais na altura em que havia os bailaricos (confrade, 60’s, Gavieira)”. Os filhos da terra, emigrados, também sentem a romaria de um modo particular, regressando em busca de um sentimento que alia a religiosidade às suas origens e nostalgia. - “Aqui, uma pessoa até parece que é outra. Há outra… o sangue parece que ferve na veia. (…) Aqui, a Sr.ª da Peneda toca-me muito. A Sr.ª de Fátima toca-me muito. Sempre estivemos, aqui, vizinhos. Sempre vim cá, enquanto cá estive, há 42 anos. Este ano é o 1º ano que vim aqui à festa, cheguei aqui e disse à minha esposa: “- É pá! Eu não conheço isto.” Porque faltou toda esta coisa que estivemos a ver, faltou esta convivência, este pessoal das aldeias aqui para baixo, daqui da Gavieira. Virem a pé de Tibo, da Várzea, a Várzea agora acabou-se. (romeiro, 70’s_2, França).” Origens que, hoje, já vão dizendo cada vez menos a parte da sua descendência: - “Depois do meu pai viemos nós. Nós, um para aqui, outro para acolá. Eu não tive a mesma vivência que teve o meu pai e tudo isso. Está tudo deslocado de um lado para o outro (romeiro, 70’s_1, França)”. - “E os nossos filhos pior (romeiro, 70’s_2, França).” O dia-a-dia Além das várias missas e pregações, a novena inclui cânticos, récita do terço, hora da adoração ao Santíssimo Sacramento com Vésperas, procissões… Em sentido restrito, “cumprir a novena” (ou a meia-novena) só implica a participação neste programa oficial. Mas diversas outras práticas rituais são realizadas por muitos romeiros. Dependendo de iniciativa própria, motivadas por importantes circunstâncias da vida e, portanto, enquadradas numa relação mais individual com a divindade, as práticas não são vistas e vividas por eles como menos importantes do que as celebrações oficiais. Assim, os romeiros realizam, por sua iniciativa, alguns rituais que não fazem parte do programa oficial da novena, mas que consideram deveras importantes e são imperativos realizar por circunstâncias da sua vida pessoal, podendo ser enquadrados numa relação individual e intimista com a Senhora da Peneda. Embora o programa das celebrações realizadas em cada dia seja diferente, a atmosfera do Santuário varia pouco: deslocações dos romeiros antes e depois dos ofícios; passagem pela Igreja e Casa da Confraria para depositar esmolas (quantias em dinheiro que outrora se penduravam na imagem da Senhora da Peneda - prática ritual proibida por normativa da diocese em 1983) e comprar cera ou alugar os ex-votos que são devolvidos após o pagamento da promessa; colocação de velas no queimador de cera; espera pelas confissões; procissões e orações individuais. Desde manhã cedo, alguns romeiros começam a ambular a capela da Senhora das Dores ou a rezar em surdina com o rosário na mão. Esta capela destaca-se pois era a capela das relíquias dos Santos e Mártires e, por isso mesmo, era um lugar de alta referência no Santuário. Hoje, as relíquias foram retiradas mas os romeiros mantêm a prática, desconhecendo a razão da mesma. - “Levantavam-se, às 6 da manhã, e vinham aqui em oração. Corríamos as capelas todas dávamos 9 voltas à volta da capela da Senhora das Dores. E havia lá missa. Agora é que não há (romeiras: 90’s e 50’s, Bravães; 60’s, São João de Vila Chã).” - “Vai-se visitar as capelas (do escadório) todas: o nascimento e a morte do Senhor. Vem-se para cima e acaba-se de rezar ali à beira da Senhora das Dores. Vimos tomar o café. Vamos embora, damos 9 voltas de volta do mosteiro (Igreja), são quase 2 terços, são nove mistérios, acaba-se um mistério dentro da Igreja. Faz-se a volta à Via-sacra (dentro da Igreja), espera-se pelos atos religiosos. Saímos de lá são 11 horas. (…) Agora, ao meio-dia, tem esta missa. Mas a gente como que vimos comer e vimo-nos arranjar. Depois às 4 horas, vamos à Senhora das Dores, rezamos outro terço, vamos para o mosteiro, rezamos mais dois terços no mosteiro e se temos tempo de fazer a Via-sacra antes dos atos religiosos faz-se, senão fazemos ao fim. E, depois, vamos com a procissão até lá baixo. A procissão lá baixo e vem-se para cima, quando está bom tempo. (…) Ás 9 horas temos os ofícios outra vez. É assim as novenas (romeiras: 30’s e 60’s, Lindoso).” - “Acordamos, preparamo-nos, tomamos café e depois vimos fazer as novenas. Depois, ao fim das novenas, se ainda faltar muito tempo vimos a casa, senão esperamos aqui pela missa. Depois, ao fim da missa, vimos embora, preparamos a comida e comemos. (Fazer a romaria) É ir lá em baixo aos escadórios, à Via-sacra, à Senhora das Dores dar nove voltas, de volta da capelinha, e depois vem-se para cima e dá-se aqui nove voltas de volta do mosteiro (Igreja) e depois reza-se aqui (dentro da Igreja) à Via-sacra, também aos santinhos (romeira, 60’s, Soajo).” Nas celebrações oficiais, os cânticos das missas e das procissões têm letras e músicas próprias que são cantadas desde o tempo em que o padre Manuel Afonso foi ordenado pároco da Gavieira, na década de 40 do século findo. Nestas músicas, a localização orográfica do Santuário é bem clara. No “Hino de Nossa Senhora da Peneda”: - “Nas alturas da Peneda,/ Nós te louvamos, Maria!/ Sob o teu manto de seda/ Buscamos paz e alegria.” - “Peregrinos da Peneda/ Não receiam as alturas:/ - Nas montanhas altaneiras/ Fala Deus às criaturas!” No “Adeus à Senhora da Peneda”: - “Nas alturas da Peneda,/ O “penedo da Meadinha”/ É sinal da Virgem Santa,/ Nossa mãe, nossa Rainha.” Nos dias de maior afluência é comum ver devotos assistir à missa no exterior da Igreja, protegendo-se do sol debaixo das árvores. Cumpridas as suas promessas e oferecidas as suas esmolas, os romeiros passam pelas tendas dos comerciantes. No final das celebrações perto da hora das refeições, os romeiros saem apressados e escolhem um lugar sossegado e com sombra ou à beira do carro para fazerem o piquenique - a romaria é também um destino de passeio em família. Num dos dias de maior presença de romeiros galegos, que chegam habitualmente em excursões de autocarro, celebra-se a Eucaristia em castelhano (dia 5). É raro ver romeiros portugueses fazer como alguns galegos que, quando passam pela fonte com uma imagem de Moisés situada no Escadório das Virtudes, molham as mãos na água e as passam no rosto e noutras partes do corpo, por considerarem que esta água tem propriedades curativas. No século XVIII, um ritual semelhante é evocado na obra de Frei Agostinho de Santa Maria (1712). Todavia, a ausência de água nos pios impossibilita a sua realização. Contudo, as moedas que os romeiros deitam à pia são periodicamente recolhidas e entregues à Casa da Confraria. Ao fim da manhã do dia 8 de setembro, por volta das 11h00, começa a missa final da Romaria, com um sermão realçando a importância da Virgem Maria para os católicos. À medida que se aproxima a hora do seu começo, a afluência cresce até atingir as largas centenas de romeiros que prolongam a sua estadia no referido piquenique familiar. Diversas atividades culturais podem ocupar os serões em que não há cerimónias religiosas. Em 2016 houve a apresentação dos livros: "Santuários de Portugal” e “Sinais de Misericórdia”. Em 2017, tiveram lugar as sessões musicais “Ao cair da noite” e “Músicas à Senhora”, bem como a apresentação de uma exposição, Em 2018 e 2019, exposições de fotografia e músicas/ fados “à Senhora”. Em 2020, a apresentação do processo de Classificação Nacional do Santuário e uma nova exposição. Estas iniciativas mantêm-se até à atualidade, sendo uma expressão da crescente parceria entre o Santuário e o Município de Arcos de Valdevez. Assim, em 2022 deu-se a inauguração do elemento escultórico e da exposição "A Árvore”. O comércio Com o início da Romaria, o lugar da Peneda ganha uma nova vida. O espaço transforma-se, sobretudo no dia 6 de setembro (dia do arraial), com a instalação de tendas e barracas de todos os tamanhos e feitios, ao longo da estrada que vai em direção a Monção e Melgaço, e com a presença de personagens que oferecem um especial colorido ao dia: vendedores ambulantes carregados de relógios, isqueiros, pulseiras, óculos de sol, ou com o teatral “homem do microfone” e o seu sonoro apelo “tudo barato!”. Como em qualquer feira, vende-se um pouco de tudo: toalhas, conjuntos de cama, guarda-chuvas, utensílios para o lar, bijuteria, brinquedos, rádios, cintos, relógios, CD, vestuário, calçado, doces e roscas, enchidos, queijos e fruta. Muitos romeiros aproveitam para fazer pequenas compras de produtos locais, como pão entre outros mais ou menos artesanais. O importante é mesmo levar uma recordação da festa. No que diz respeito aos objetos religiosos vendidos na Casa da Confraria e noutras lojas, não se pode afirmar que possuam valor artístico ou artesanal. Todavia, a procura por estas “lembrancinhas” é grande. A sua compra é, em si mesma, um ato de devoção e de tradição. O motivo que leva o devoto a adquiri-las é, principalmente, o de recordar a visita à Senhora da Peneda, evocando (para si ou naqueles que o esperam em casa) um eco da experiência vivida no lugar sagrado (Lima, 2014, 2015). As medalhas, terços e imagens, transportados no bolso ou como adorno, atualizam a presença da Virgem (Leandro, Leandro & Cunha, 2014) e são carregados de uma forte esperança de proteção do corpo, da família, do carro ou da casa. Mesmo sendo banal, o objeto adquirido numa Romaria ganha um caráter de materialização do lugar visitado e da vivência religiosa experienciada, tornando-se ainda mais especial quando, como commumente a pedido dos fiéis, é benzido pelo padre. - (Investigadores: “É-lhe pedido para benzer aquelas pequenas lembranças que as pessoas compram, ou seja, de modo informal as pessoas abordam-no para…?”) “- Sim, sim. (…) Isso é habitual durante o ano todo (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” O arraial Contrastando com o fervor religioso patente no decorrer da novena, o arraial do dia 6 de setembro constitui a componente profana da Romaria da Senhora da Peneda. As primeiras cantigas e concertinas começam a ser ouvidas no Santuário a partir do início da tarde, em particular nos anos em que o dia 06 é um sábado ou domingo. - “Nós, durante nove dias, temos momentos de silêncio, de oração muito concretos, de muito recolhimento. Ao mesmo tempo, temos a apoteose do que é a dança popular, do que é o encontro, do que é as concertinas, do que é gaita de foles, do que é pandeiretas e tudo… da multidão e da pessoa sozinha. Existe exatamente este contraste e isso ajuda a encontrar esse equilíbrio e essa paz de espírito que as pessoas falam, porque lhes dá tudo aquilo que elas precisam. O silêncio e o recolhimento e, ao mesmo tempo, a festa, a dança, a exteriorização do que lhes vai na alma (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” Ao longo da tarde podem formar-se pequenos grupos isolados de dançarinos, mas não resistem muito tempo ao calor. Os cantares ao desafio também vão começando de maneira discreta, perto do chafariz. Onde houver pelo menos uma concertina, há sempre um ajuntamento, e a superposição do som de múltiplos instrumentos vai crescendo. A fase mais intensa começa ao início da noite, mesmo antes do fim das cerimónias religiosas do dia. Nessa noite, na cerimónia que antecede o beijo da Imagem, as concertinas são benzidas na Igreja. Esta prática, introduzida há quatro anos, não suscitou reações desfavoráveis. Cerca de dez tocadores entram na Igreja, percorrendo o corredor central, tocando o hino religioso “Polorum Regina”. Aí permanecem alguns minutos e inicia-se depois um desfile com o pároco e os tocadores até ao recinto do arraial. Contudo, o Terreiro já se encontra repleto e não é dada grande atenção à chegada do cortejo. Os tocadores que participaram ficam no Terreiro incorporando grupos pré-existentes, enquanto o pároco regressa à Igreja para a celebração do “Hino Akathistos em Honra da Virgem, Mãe de Deus” (beijo da Imagem), onde a solenidade e devoção contrastam com o ambiente do Terreiro. Com a bênção das concertinas surge uma ponte entre o mundo profano e religioso, uma iniciativa que contrasta com as tensões que sempre existiram entre representantes do poder eclesiástico, desejosos de reduzir os elementos profanos de uma romaria, e a vontade popular local para a qual o arraial não é menos importante que os rituais religiosos. - “Realmente existe uma ligação entre o Santuário e o espaço exterior; entre a concertina para quem a pessoa pede a bênção e o espaço mais de convívio e diversão. Quer dizer, tudo isto faz parte (…). Tem de ser tudo integrado (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” - “Levei as concertinas para dentro do Santuário, para fazer uma bênção. A bênção não é propriamente das concertinas, é assim que se chama, mas sim de quem as toca. Mas escolhemos um cântico, uma música especifica para ser tocada, que foi composta à muitos séculos atrás, exatamente para fazer essa ligação entre o interior e o exterior do Santuário. (…) Nós não queremos nem fazer que um baile tenha uma dimensão religiosa, nem queremos o contrário, não queremos que o baile entre dentro do santuário. Não é isso o pretendido. O pretendido é que as pessoas compreendam que nos importam todos, todos os momentos e por isso, essa ligação é um elemento simbólico, para manifestar exatamente isso (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” No entanto, durante a romaria ouvem-se os avisos dos sacerdotes: “passemos a noite livre de culpas para amanhã nos reunirmos e dar graças ao Senhor” ou “todos aqueles que tocam a concertina sejam sensíveis aos domínios de Deus”. - “É assim, já houve uma guerra aberta entre a parte, digamos, profana/ popular e a parte religiosa propriamente dita. São dinâmicas do tempo, agora o que nós procuramos é que haja exatamente essa ligação, entre o Santuário e o espaço do baile, da animação (…). Nós temos de compreender, o que está por detrás disso é o ser humano na sua integralidade. Que tem uma dimensão espiritual, que tem uma dimensão mais lúdica, mais… É a pessoa toda que nos interessa. Não nos interessa apenas uma parte da pessoa, interessa-nos chegar à pessoa toda (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” Este momento de festa, associado ao seu contexto espacial, está muito marcado pela experiência do encontro e do folguedo, onde a sensualidade é claramente expressa nos comportamentos dos momentos de dança, pela proximidade física e facilidade de ocultação por entre a multidão ou mesmo nas imediações. Se, no passado, era um momento primordial de encontros, onde até nasciam namoros além fronteira, mesmo hoje, essa valência permanece: - “Há muito pouco tempo (…) um (casal) começou a namorar aqui e outro foi o pedido em casamento aqui. O marido pediu-a em casamento. Naturalmente, não acontece com a mesma força que existia no passado, até porque a dinâmica social é completamente distinta (pároco-reitor, 30’s, Castro Laboreiro).” Para dançar, formam-se pares mistos de todas as idades, mas também se vêem mulheres que dançam juntas, à falta de homens dispostos a mostrar dotes de dançarinos. Uma certa desordem inicial dissipa-se e os movimentos circulares da multidão ganham forma, guiados pelas indicações dos “mandadores” incumbidos de coordenar os pares. Forma-se a “roda” à volta dos tocadores, num ininterrupto encadeamento sonoro: quando termina uma moda, no espaço de um minuto começa outra. Olhando desde o Escadório das Virtudes, o Terreiro é composto pelo movimento lento dos que se deslocam entre pontos e pelo movimento frenético das rodas de dança onde os participantes mais entusiásticos parecem nunca parar para descansar ou beber nas barracas de comidas e bebidas dispersas pelo recinto. - “Aqui, o Largo do Terreiro fica completamente… só se vê cabeças, é um tapete de cabeças. E, por aí acima, nos escadórios a vir para baixo. Não se rompe daqui até acolá, ao outro lado, ao café do outro lado. É, não se rompe. Não se anda bem com tanta gente, muita gente (lojista, 60’s, Peneda).” Alguns dos jovens presentes no Terreiro participam nas “rodas” tradicionais. São sobretudo residentes nas freguesias rurais dos concelhos dos Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Monção e Melgaço, e os filhos de emigrantes que fazem parte dos ranchos folclóricos da sua cidade de residência. Não é raro reconhecer os “especialistas”, que são vistos nas festas e romarias de verão dos concelhos vizinhos. As danças mais tradicionais da região - vira, chula, cana verde - são interpretadas sobretudo por homens que, além das omnipresentes concertinas, tocam castanholas, bombos, ferrinhos, cavaquinhos e reque-reques. - “Viras, Canas Verdes, estas rodas populares tem um cariz que é assim o nosso folclore. Felizmente, é riquíssimo em diferenciação de músicas, cantigas diferentes, músicas diferentes. Mas nestas rodas populares é um carisma… é quase sempre o mesmo. O pessoal gosta daquilo, daquilo por estar no ouvido. Se os tocadores, por qualquer motivo, mudam um bocadinho ou vão buscar outras músicas que estão mais esquecidas (dizem): ‘Ai não! não toques isso! nós não queremos isso (romeiro, 50’s, Canadá).” O arraial da Peneda é uma ilustração da maneira como, qualquer que seja o género musical preferido e em contextos sociais muito diversos, a dança continua a ser pretexto para visitar outras terras, para fazer novas amizades, iniciar um namoro. É um dos sinais, neste momento sensíveis no Alto Minho, de como após a folclorização das músicas e danças tradicionais, se dá agora uma certa reapropriação e recontextualização. - “Uma das coisas que eu notei nos últimos anos e que decaiu, talvez, durante a década de noventa, foi os tocadores de concertina. Houve uma altura em que decaiu por completo. Hoje está a recuperar muito, muito… está a recuperar muito (confrade, 60’s, Gavieira).” No arraial da Peneda ressoam também cantares ao desafio, proferidos perante um público quase sempre claramente separado dos executantes, presente para assistir à “atuação” espontânea, mas de onde saem ocasionalmente novos intervenientes, entusiasmados com as prestações dos cantadores. Estes são tanto mais apreciados quanto mais cruzarem, na medida certa, os elementos próprios destes confrontos: os impulsos repentistas, a perspicácia verbal, o adestramento técnico, a força da réplica, as confidências e inconfidências, o inesperado, o segundo sentido, o chiste, a provocação e o humor picante (Nogueira, 2005). - “Aquele rebanho, entrando e dançando, é um espetáculo. É um espetáculo mesmo. É muito bonito para quem gosta. Cantam ao desafio (…), ajunta-se aqui um grupo a cantar ao desafio, outro a cantar doutra maneira e a roda sempre lá, às 100, 100 concertinas (lojista, 60’s, Peneda).” A tonalidade das quadras roça com frequência o brejeiro mas, no contexto de uma romaria como esta, a licenciosidade é autocontrolada: durante a tarde os cantares e concertinas interrompem-se quando se aproxima uma procissão. Em todo o caso, na Peneda como em muitas outras romarias, o arraial é “lugar de uma socialização intensa mas fugaz, dominada pela liberdade relativamente às regras, à ausência de trabalho, à gratuitidade. É a comunidade reencontrada e alargada, onde somente ressoam os cantos e a música” (Sanchis, 1992: 143). Com umas raras exceções motivadas pelo pagamento de uma ou outra promessa, nota-se a ausência quase completa do lançamento de foguetes. Justificada pela possibilidade de derrocada de penedos e pelo risco de incêndio, sobretudo no período do ano em que tem lugar a Romaria que ocorre nesta zona montanhosa bastante arborizada. Popularmente, esta interdição é vista, por alguns, como uma imposição eclesiástica. As memórias de tempos passados evocam noites intermináveis e arraiais que se prolongavam até ao romper do dia. No entanto, as evoluções sociais, culturais e económicas encarregaram-se de limitar os festejos, obrigando quem tem agora as obrigações profissionais de um trabalho assalariado a regressar mais cedo a casa. As danças folclóricas, a organização oficial de espetáculos e a introdução da música de baile ou de discoteca, como terá acontecido ocasionalmente no final dos anos 90 numa casa particular são outras transformações, que os habitantes mais idosos do lugar nem sempre apreciam.
  • Manifestações associadas:
    A Romaria da Senhora da Peneda integra o calendário anual das festividades religiosas cíclicas que decorrem em todo o Alto Minho na época de verão. Não tem, todavia, ligações particulares e diretas com outras celebrações. Apresenta alguma proximidade com a Romaria de São Bento do Cando, que se realiza também na freguesia da Gavieira e que atrai muitos dos mesmos romeiros. Era comum os mesários da Confraria da Peneda terem sido também membros da Mesa Administrativa de São Bento do Cando.
  • Contexto transmissão:
    Estado de transmissão activo
    Descrição: A tradição da Romaria da Senhora da Peneda apresenta uma vertente religiosa católica e outra profana e popular. Transmite-se, portanto, em simultâneo num modo institucional e letrado, alicerçado numa autoridade explícita, e noutro, tradicional, oral e participativo. A transmissão das maneiras de realizar a Romaria da Senhora da Peneda efetua-se, em particular, no que diz respeito aos seus aspetos programáticos e rituais oficiais, num quadro institucional e formal, controlado pelos representantes locais da autoridade eclesiástica. Trata-se de uma dimensão que deve obedecer a normas cuja formulação escapa aos membros da comunidade envolvida na festa e que, numa certa medida, podem ser contraditórias com alguns dos seus desejos. Por outro lado, muitas práticas sagradas ou profanas que são caras aos romeiros transmitem-se de geração em geração de maneira informal, pela observação, consulta dos mais velhos e pela incorporação progressiva ao longo de sucessivas participações no evento. As mulheres desempenham aqui um papel de relevo.
    Data: 2022/09/06
    Modo de transmissão oral e escrita
    Idioma(s): Português
    Agente(s) de transmissão: Representantes da Igreja Católica; os membros da Confraria; os romeiros; os moradores do lugar da Peneda e freguesia da Gavieira.
  • Origem / Historial:
    As narrativas apontam a sua origem para o século XIII, quando a 5 de agosto de 1220 Nossa Senhora terá aparecido: ou a uma pastorinha no lugar da Peneda, segundo uma lenda relatada por Santa Maria (1712), ou a um criminoso de Ponte de Lima que se tinha refugiado naquele lugar (Costa, 1869),noutra versão. Para além da força da crença popular na aparição, poderá ter sido importante para a afirmação do culto o facto do Santuário ficar no percurso que era seguido pelos monges beneditinos que circulavam entre o mosteiro de Ermelo (junto do rio Lima) e os restantes mosteiros que se seguiam até Celanova (Galiza), bem como um dos itinerários de peregrinação a Santiago de Compostela. Já na segunda metade do século XVI, o culto local à Senhora das Neves terá, segundo Pintor (1976), ganhado um forte incremento. Isto deve-se, sobretudo, às grandes epidemias que grassaram em Portugal, nomeadamente em Braga e Viana do Castelo, e que impeliam a deslocação de assinalável número de romeiros à Peneda, a solicitarem proteção à Senhora. Provavelmente, o povoamento do lugar da Peneda foi posterior ao dos lugares de Rouças, Gavieira e Tibo, pois ainda não aparece mencionado nas Memórias Paroquiais de 1758. No entanto, “já por ali morava gente em 1775, uma vez que ficou registada a despesa de 1.200 réis com os oficiais de justiça que vieram dar busca às casas dos moradores para ver se tinham furtado taboados” (Pintor, 1976: 40). Se a Peneda era uma branda (povoamento sazonal de verão) utilizada pelos habitantes da freguesia de Soajo para apascentarem os seus gados (Afonso, 1993; Pintor, 1976), foi com o aumento do culto e a construção do Santuário que se deu origem à aldeia/ lugar de habitação nos inícios do século XVIII. Como vimos anteriormente, e também segundo Carvalho (2004: 3), “as últimas décadas do séc. XVIII teriam assistido à fixação intensiva de famílias vindas das aldeias limítrofes, que se deslocalizaram para a Peneda atraídas pelos postos de trabalho resultantes das obras, de grande envergadura, relacionadas com a construção do imponente complexo, que envolve o Santuário, os Quartéis destinados ao alojamento dos peregrinos, dos quais já se destacavam os galegos, pois, nessa época, a Peneda era um lugar desprovido de habitações e os romeiros viam-se obrigados a descansar do rigor da caminhada nas lapas e grutas que proliferavam em abundância”. Há uma referência a uma ermida existente no lugar da Peneda em meados do século XVIII, o que pode ser suportado por Capela (2005: 46): "Tem quatro ermidas, que bem a ser, huma no cimo do lugar de Rouças com a invocação de Santo António, outra no cimo do lugar de Tibo com a invocação do Espírito Santo, outra no sítio chamado do Cando com a invocação de São Bento, outra no sítio da Peneda de invocação de Nossa Senhora das Neves, esta tem confraria de irmãos e huma e outra pertencem à mesma de São Salvador da Gavieira. Acodem a estas duas ermidas de São Bento e de Nossa Senhora da Peneda desde vinte de Junho enté vinte de Setembro gente bastante de romagem." Em 1758, a ermida localizada no lugar da Peneda era já um centro importante de romagens, segundo transmitiu o padre Manuel Esteves, cura desta freguesia, ao fazer referência às suas capelas, uma das quais no sítio da Peneda, invocando Nossa Senhora das Neves. A esta ermida de São Bento e de Nossa Senhora das Neves da Peneda, afluíam numerosos romeiros, desde 20 de junho até 8 de setembro. Na mesma altura, criou-se uma irmandade que ainda existe e vem já mencionada em 1795, no Tombo da freguesia de Soajo. O mesmo tombo descreve cada uma das duas ermidas. A transcrição do Tombo de Soajo, revela um culto bem implantado na época: “Declarou mais que dentro do limite da freguezia da Gavieira se acha o magnifico Santuario da Virgem Santisima com a evocação das Neves da Peneda em cujo Santuário tem o Cura da dita freguezia da Gavieira a pose da chave do sacrário e o direito de sasenta Reis de cada misa cantada, e de asento vinte reis de cada huma a que asiste, e na mesma Igreja da Peneda há huma irmandade que administrão vários e diversos oficiais recebendo as avultadas esmollas dos fieis comforme seus estatuttos e sentensas ou Provizoins Riais no qual Santuário há muitos e bons carteis edeficados para gazalho dos Romeiros que concorrem por todo o tempo do Anno e expecialmente nos mezes de Agosto e Setembro e com clamores de varias Igrejas que constão dos instatuttos e me [fol. 15] dos instatutos e memorias da mesma comfraria […].” No dito Tombo feita ainda uma descrição minuciosa do Santuário da Peneda: “Declarou elle Reverendo Abbade que desde o tempo antiquíssimo da fundação do ditto Santuário estava elle e seu cura da freiguezia sobreditta da Gavieira na pose da chave do sacrário e direitos Parroquiais de cada missa que nella se cantava sasenta reis e asistindo a hella sento e vinte reis. Declarou mais que avia no mesmo santuário huma Irmandade da Virgem Nossa Senhora das Neves da Peneda com estatuttos que se achão no Dezembargo requerendo comfirmação e outras providensias para a adeministração do mesmo santuário. E tem a Igreja do mesmo Santuário da Peneda pella parte de dentro desde a porta principal athe o Altar Maior de comprido vinte varas de sinco palmos cada huma e de largo sete varas e dois palmos e pella parte de fora tem de comprido vinte [fol. 35v.] de comprido vinte e duas varas e três palmos e pella testa por detrás da Capella Maior da parte do nasente oito varas e meia e na frontaria da parte do puente onze varas e três palmos onde se inclue huma Torre que esta unida a mesma frontaria com seu sino grande, tem três Altares de talha e dourada na maior se acha colocada a imagem da mesma Virgem Senhora das Neves da Peneda e no Altar da parte direita tem a imagem do Senhor Crusificado e no altar da parte esquerda as imagens de Nosa Senhora do Rozario e Sam Joaquim e Santa Anna tem a dita Igreja seu coro de Madeira pintado como também seu púlpito e huma ademiravel porta férrea que devide a Capella Maior a coal e todo o corpo da Igreja he de abobeda de cantaria pintada que tudo com boma [sic] proporção fazem hum magnifico templo ornado com cortina de seda muitos e vários ornamentos preciozos em que se selebra o culto devino magistozamente, tem muitos e bons coarteis feitos para acomodação do emmenço povo que concorre com votos oraçoins e promesas cotediannamente e muito mais nos mezes de todo Agosto [fol. 36] de todo Agosto e Setembro. Para este Santuário se entra por huma soberba portaria de cantaria lavrada com excetente risco e se vão seguindo logo hum Padrão que também há de servir de chafaris em cuja esta se contem a seguinte insquirição e memoria. Governando a Igreja Católica o Santicimo Papa Pio Seisto no anno treze de seu filicisimo Pontificado reinando em Portugal Maria Primeira Pia Augusta fidelisima no anno decimo de seu império Regendo a Igreja Bracarençe o Arcebispo Dom Gaspar Príncipe singullar Magnifico no anno vinte e oito de seu governo os adeministradores deste Santuário depois de restaurarem suas ruínas empetrarem a graça perpetua do jubilo sagrado colocarem o Augusticimo Sacramento no tabernacullo Santo anpliarem o antigo terreiro fundarem estes Santos e Magníficos edifícios puzerão esta pedra para mumento digo pedra para munimento e termo de seu zello triunfo da Religião e gloria Imortal da Santicima virgem na era Cristam de mil e sette sentos e oitenta e sette. Continuão [fol. 36v.] sete continuarão digo e oitenta e Sesette [sic]. Continuão a subir para o Terreiro de huma e outra parte emportantes passos de cantaria e abobeda labradas as coais se achão inconpletas ignorando se o seu distino.” No início do século XIX, o lugar da Peneda apresentava um reduzido número de habitantes que vieram para as obras do Santuário e aí se fixaram. Contudo, com o decorrer do tempo, os terrenos próximos do Santuário começaram a escassear, o que levou os trabalhadores a povoarem outras paragens, dando origem ao lugar do Baleiral. Na primeira metade do século XIX o pórtico dos Quatro Evangelistas foi acrescentado ao escadório e, na década de 1860, foram erguidas as estátuas das quatro Virtudes. A nova igreja ficou concluída em 1857, ano em que acolheu a imagem da Senhora da Peneda. No início do século XX, Gomes (1903: 29-39) deixa-nos uma detalhada descrição da Romaria tal como a viu há mais de 100 anos: “No primeiro dia, ainda os raios de sol não alumiavam os píncaros das serras, e sentindo um frio de dezembro, subi ao Terreiro do templo e sentei-me próximo contemplando o enorme cordão de povo que, de rosário na mão, circulava em redor da Igreja, rezando em voz alta [...]. Mais tarde, saiu da Igreja uma nova chusma de povo e, após ela, algumas mulheres e homens de joelhos, seguindo o caminho dos que de pé faziam Romaria. Aquela penitência, umas vezes em satisfação de um voto, outras para pedirem uma graça que esperam da Senhora é custosíssima. Às dez horas ouvi tocar o sino e fui ao templo. Começava a novena e o templo estava repleto. Após a novena recolheram as mulheres aos Quartéis a cuidar do jantar e arrumar as enxergas. Visitei casualmente um quartel próximo do meio-dia. Aos cantos da sala e em tábuas suspensas do teto, ou pregadas na parede estavam baús e saquitéis com roupas e comestíveis. A um dos cantos, numa lareira, ardia lume tendo em volta panelas de barro ordinário fervendo com iguarias diversas. Estavam nesse quartel 19 pessoas, algumas de novena inteira outras de meia-novena. De tarde saiu o terço que percorreu todas as capelas e recolheu ao Santuário. No segundo dia, muito antes do romper da alva, começava no Terreiro o movimento costumado. Uns lavavam o rosto no chafariz, outros acarretavam água para o almoço e outros aproximavam-se dos botequins ambulantes. De Tibo e de Riba de Mouro (Monção), chegavam as vendilhonas de pão de trigo e de milho. Algumas delas traziam frutas. Às seis horas o Terreiro do Santuário parecia uma feira em povoação de grande movimento. Grande número de pessoas dirigia-se ao templo, onde vários sacerdotes celebravam. Durante a tarde não houve qualquer circunstância digna de registo, a não ser umas gotas de água que vieram desanimar um pouco os romeiros. No terceiro dia, logo de manhã, retirou muito povo que estava de meia-novena. Por algumas horas o Santuário esteve sem movimento [...]. Cerca do meio-dia, um aluvião de povo, vindo dos Arcos, Barca e mais povoações do sul, invadiu o recinto. Enquanto um de cada grupo procurava quartel, os outros conservavam-se sentados nos parapeitos e escadórios. O grupo que mais se distinguiu foi o das bacalhoeiras de Darque. Numeroso, alegre, bem vestido, imprimiu ao Terreiro um tom mais alegre. Longe de aparentarem cansaço, pelo contrário, pareciam chegadas de uma pequena jornada, tal era o desembaraço com que bailavam ao som das violas e harmónicas. No quarto dia, logo desde manhã, milhares de romeiros, sem distinção de classes, chegavam de todos os lados. No alto da fraga estralejavam foguetes, anunciadores da chegada de numerosos bandos, procedentes de Melgaço, Monção, Valença, Cerveira, Caminha e Coura. Na serra que fica a levante, a colónia espanhola anunciava-se igualmente com girândolas. Causava prazer e entusiasmo contemplar aqueles enormes cordões de povo, com as suas borrachas a tiracolo, ou seus instrumentos de música, tocando alegremente, os seus açafates e baús à cabeça, e, entre eles, um ou outro amortalhado, com vela, ou conduzindo um touro, uma vaca, ou um carneiro [...]. Até às dez horas, calculei terem descido as duas serras, nada menos de mil e duzentos peregrinos. E esse cálculo foi-me fácil fazê-lo, pelo número de ranchos que pediram quartel. Às onze horas, o movimento na casa da mesa e na Igreja era enorme. Pelo escadório, viam-se constantemente passar mulheres e homens de joelhos, muitas vezes sem ninguém que os amparasse. Uma das mulheres conduzia ao colo uma criança de dois anos e tinha prometido aquela penitência, pela mesma criança sua filha, que esteve às portas da morte. Todo o dia chegou gente, a ponto de à noite os Quartéis estarem repletos. Alguns comportaram 40 pessoas e nas varandas ainda ficou muito povo. No quinto dia, logo de manhã, nova invasão de povo acabou de ocupar tudo o que havia devoluto. Não ficou uma varanda de vago [...]. Na casa das mortalhas, que é no rés-do-chão, do edifício, aquartelaram-se mais de quarenta pessoas, que dormiam sobre palha. Durante o dia o movimento de promessas na Igreja e na casa da mesa foi enorme. Amortalharam-se mais de trezentas pessoas, não contando as que vinham amortalhadas de suas casas. Alguns dos penitentes iam em caixões, com o lenço tapando o rosto, tal qual iriam para a sepultura e eram conduzidos por quatro amigos. Atrás, alguns companheiros tocavam em diversos instrumentos várias músicas festivas. De tarde, vi uma moça esbelta, parecendo de família abastada, ir aos pés da Virgem e ali tirar todos os seus ornamentos de ouro: brincos, colar e anéis e depositá-los no altar. Dali levou-os para a casa da mesa, onde os entregou. A pobre donzela, que teria talvez 16 anos, chorava copiosamente aos pés do altar. Um moço de bela aparência e estatura muscular, também conduziu aos pés da Virgem um touro que prometera por se livrar de soldado. Outros amortalhavam-se e percorriam todo o Santuário de joelhos, o que leva mais de uma hora. Contei de uma vez 27 homens e mulheres, todos ao mesmo tempo percorrendo o escadório. Ao fim da tarde, o Terreiro grande era a coisa mais bela que tenho visto. Mais de dez mil pessoas dançavam, cantavam e tocavam. O barulho era ensurdecedor. A variedade de tipos, a diversidade de trajes, as maneiras de bailar, os descantes, tudo enfim era soberbo, arrebatador. O coreto de música tocou junto à casa da mesa até cerca da meia-noite. Às dez horas, queimou-se algum fogo. No dia seis ouvi, logo de manhã, dois sermões de promessa na Igreja e, dando-me ao trabalho de contar os sacerdotes presentes no Santuário, notei 29, entre os quais um espanhol [...]. Pelo número dos padres, e estou certo que não os contei todos, já se pode calcular o povo que eles arrebanharam. Houve muitas confissões e comunhões na Igreja e um ofício de defuntos por alma dos irmãos falecidos. Durante o dia ainda veio muito povo, quase todo de perto [...]. À noite, na companhia de um sacerdote mesário [...] percorri o arraial em todas as direções e fiquei maravilhado. Todos dançavam e cantavam, mas as espanholas, ocultas nos recantos, ouviam-se distintamente no meio daquele barulho ensurdecedor. As suas canções à Senhora da Peneda, que muita gente não ouve, ou despreza propositadamente, são dignas de arquivar-se. […] No dia seguinte, o da festa, logo de manhã, retirou muita gente, a ponto de, quando saiu a procissão, já não haver no Santuário duas mil pessoas. Retiraram-se na madrugada seguramente dez mil romeiros. Dia já alto, entraram bastantes ranchos que traziam pequenas ofertas. Num desses ranchos, vinha um moço militar espanhol amortalhado, acompanhado da mãe. Prometeu a mortalha se regressasse incólume na campanha das Filipinas. Depois da missa solene na Igreja saiu uma pequena procissão na qual se incorporavam bastantes irmãos e clérigos. Atrás do pálio, seguia um indivíduo talvez de 50 a 60 anos, conduzindo ao ombro um enorme círio. Prometeu-o pela esposa que esteve a morrer e disse em voz alta que era à Virgem da Peneda que devia a saúde da esposa, que o acompanhava. No dia seguinte, não havia no recinto mais de trezentas pessoas. Estava tudo acabado.” Uma outra descrição, feita por Castro (1907: 104-106) na mesma altura transmite o ambiente de festa de há 100 anos, mas num tom algo sarcástico que, segundo Vasconcelos (1998: 327) deixa sentir o fosso que se abrira, desde o século XVIII e sobretudo durante o XIX, entre as pessoas letradas, como o autor, e a cultura popular: “Para fazer promessa e obter gozo de uma novena é preciso que cada romeiro proceda da seguinte forma: permanecer nove dias no Santuário, só com a obrigação de ouvir missa e fazer Romaria em volta da Igreja; descer a visitar as capelas antes do almoço; almoçar, ir ver as tendas, ouvir um sermão, presenciar o desfilar das filarmónicas que em alguns anos chegam a atingir o número de doze, jantar e ir desfrutar os descantes das raparigas de Caminha, o bailar das moças de Barbeita, o namorar dos rapazes dos Arcos, de perna cruzada sobre o varapau [...] o cantar ao desafio para se conhecer os melhores cantores de cada ano, ver o salero das espanholas tangendo a pandeireta e fazendo estalar as castanholas, ir ao terço, ver os amortalhados de promessa e ir cear; sair depois para gozar a continuação dos descantes e danças, observar os bandos que se retiram, as caravanas que chegam e o fervilhar de gente que cozinha ao ar livre; enfim, tomar café e as surpresas que esperam os romeiros! Para melhor complemento da nossa narrativa enumeremo-las: Dez padres celebram missa no mosteiro ao mesmo tempo; um pregador espera que outro termine o sermão no púlpito; um ou outro devoto faz a sua promessa metido num ataúde que é conduzido por alguns homens que vão com ele dar a volta ao mosteiro e visitar as capelas; bois e vacas com os chifres enfeitados a fitas de seda fazem Romaria à Senhora da Peneda, para os mesários os poderem aceitar por boa promessa; um devoto, que obteve cura de uma moléstia incurável, faz entrega à Senhora de espantosa promessa do peso do seu corpo em moedas de prata. Tudo isto dá assunto para conversas durante o ano até à nova Romaria. A fama desses milagres espalha-se até longe e a concorrência aumenta de ano para ano.” Há quarenta anos, Crespo (1979: 182-183) observava na sua evocação romantizada de tempos passados, que “a Romaria foi perdendo o selvático pitoresco de outrora, com abaladas noturnas pelo deserto pedregoso e carrasquento, espreitadelas de lobos, dormidas ao relento e colações improvisadas à beira dos regatos. Os romeiros arrastavam-se durante horas intermináveis de abnegado esforço, de noite, à luz de lanternas e de gasómetros, de dia, quando a bruma se esfarelava, sob os raios de um sol impertinente, com os farnéis às costas disputando as sombras dos erráticos penedões, ou dos raquíticos carvalhos centenários. Ranchos de portugueses e de galegos, a cada passo se encontravam e juntavam, acamaradando na folia, com os seus descantes e bailados regionais. Nas encruzilhadas, apareciam as castrejas, embiocadas nas suas capas escuras também com burros para alugar. Ofereciam-nos: «alugue o meu geriquinho. É mansinho e não deixa cair ninguém» [...]. Vistos de longe em filas ininterruptas, pelos carreiros perdidos da serra, carregando farnéis e agasalhos, os romeiros pareciam formigas laboriosas. Era preciso levar tudo, pois lá não havia nada: só o quartel, velho casarão de telhado batido pelas intempéries, de portas e janelas desmanteladas. Nele se estendiam, sobre feixes de colmo alugados, os cobertores. Muitos levavam toldos e armavam tendas; alguns acampavam como os ciganos, pois os Quartéis não chegavam para todos. Um dos pontos altos e mais divertidos da Romaria era ver chegar os ranchos espanhóis, sobretudo galegos, que mostravam ser os mais alegres e devotos da Virgem da Peneda. Assim que lhes sentiam o som das pandeiretas, das gaitas, das concertinas e das conchas, corriam todos para os verem chegar. Desciam as encostas circundantes a cantar e a bailar. Era um delírio.” De facto, a Romaria da Senhora da Peneda apresenta, atualmente, um leque de características substancialmente diferentes das vividas noutros tempos. Desapareceu, por exemplo, o uso de caixões descrito no relato feito por Gomes no início do século XX, uma evolução que aconteceu progressivamente também em muitas outras romarias. Esta evolução na perceção da Romaria prenunciava a reforma de uma série de aspetos da festa que uma Igreja empenhada em sacudir o paganismo empreenderia a partir da década de 1930. Diversas medidas enquadraram-se no movimento eclesiástico de recristianização das romarias que marcou as décadas de 30 e 40 do século XX e que tomou as formas de devolução coletiva implementadas em Fátima como um modelo do que deve ser uma peregrinação em alternativa à Romaria tradicional (Vasconcelos, 1996). Na Peneda, à semelhança do que aconteceu noutros Santuários portugueses (Amante, 2007; Carvalho, 2013; Espírito Santo, 1990; Fernandes, 2001; Sanchis, 1992, 2006; Silva, 1994; Silva, 1998; Sobral, 1999; Vale, 2007, 2010; Vasconcelos, 1996, 1998), estas reformas consistiram num duplo movimento de medidas positivas e negativas. Por um lado, na dinamização e multiplicação das cerimónias religiosas supervisionadas pelo poder eclesiástico e, por outro, nas restrições impostas de forma coerciva, em relação ao espaço, ao tempo e ao modo em que decorriam as atividades lúdicas e profanas da Romaria. No período do Estado Novo, as autoridades eclesiásticas implementaram reformas mais impopulares que visavam a conduta moral e religiosa dos romeiros. Em 1933, o arcebispo D. António Martins Júnior obrigou a confraria a sujeitar o programa da celebração à sua apreciação, impedindo que, no Terreiro e em toda a área do escadório, ocorressem animadas rusgas e cantares ao desafio, ou seja, todos os divertimentos de carácter profano, e reservou esse espaço exclusivamente ao cumprimento dos preceitos religiosos. Aconselhou os sacerdotes a convencer os fiéis a substituir os sermões de promessa por outra prática (Vaz, 1940: 69-71). Alguns anos após estes decretos episcopais, Vaz (1940: 64-65) fazia a seguinte avaliação do seu impacto: “[...] a Romaria de hoje vai a caminho duma recristianização perfeita. Ganha em piedade e unção religiosa, o que perde em estúrdia e folia de carnaval. Aproxima-se das horas de intenso fervor religioso de outras eras e despe as cenas lúbricas de orgia pagã em que se ia transformando. Desapareceram os descantes e as distrações mundanas, à hora do terço e, em seu lugar, surge o Terreiro honesto, digno, lavado de imundice [...]. Hoje o Santuário está limpo de estúrdias desde a Igreja ao átrio de entrada. Os romeiros podem entregar-se confiadamente às suas devoções, pois ninguém ousará perturbar o recolhimento e a liberdade desses atos religiosos.” Romeiros mais idosos e que têm lembranças das festividades em meados do século XX evocam pessoas metidas dentro de caixões em procissão, bem como a relutância do povo em acatar a proibição de dançar e cantar em certos lugares, que por vezes motivou a intervenção das autoridades. Tendo como pano de fundo as transformações ocorridas na sociedade portuguesa e, em particular, no mundo rural do Alto Minho, verificadas sobretudo a partir da década de 60 do século XX, poder-se-á dizer que a Romaria da Senhora da Peneda reflete as mudanças ocorridas nas últimas seis décadas, com o grande movimento de emigração, a secundarização da produção agrícola e a abertura a influências culturais externas. As romarias desenvolveram-se numa sociedade agrária que se encontra agora em processo de desintegração num contexto marcado pela individualização da relação com o mundo religioso e um certo declínio das formas instituídas da prática. Hoje, a Romaria da Senhora da Peneda é menos rural e localista, mais monetarizada. As consideráveis melhorias das condições de vida na região traduziram-se numa diminuição do número das promessas relacionadas com doenças. Pede-se agora cada vez menos pelas colheitas ou boa-hora no parto. Pedidos circunstanciais como o bom regresso da Guerra do Ultramar desapareceram obviamente e já há muito tempo que deixou de se ver militares e ex-militares a agradecer por terem escapado ilesos. Espera-se agora emprego, entrada na universidade, sucesso nos estudos, sorte no Euromilhões. Hoje, no pagamento das suas promessas, os romeiros recorrem menos a performances mortificantes. Há menos devotos a cumprir a novena e a meia-novena, amortalhados ou a cumprirem promessas de joelhos. O número de pessoas que realizam a pé a viagem até ao Santuário é agora mais reduzido e, quem o faz, têm frequentemente motivações mais lúdicas do que religiosas. As motivações que levam os romeiros ao Santuário da Senhora da Peneda são hoje muitas e provavelmente muito mais diversificadas do que no passado. O antropólogo espanhol Briones Gómez (2011) deu conta de um fenómeno singular que estava a ocorrer na Andaluzia, desde os anos oitenta do século XX, e que se pode aplicar a esta região do Alto Minho. O autor atrás citado sustenta que se assiste a uma progressiva secularização que se manifesta numa crescente “descatolização” das instituições sociais e das consciências individuais. Mas os romeiros deslocam-se ao Santuário da Senhora da Peneda porque esta continua a dar resposta a alguns dos seus anseios e a solucionar ou a mitigar muitas das suas doenças ou problemas do quotidiano. Portanto, o seu desapariçãoou persistência relaciona-se diretamente com a sua utilidade e funcionalidade no campo das identidades coletivas, na dimensão festiva e de sociabilidade e na satisfação das necessidades materiais e de resposta de sentido para a vida (Briones Gómez, 2011). Os mais novos, a maioria das vezes com mais habilitações literárias e com novas formas de encarar o mundo e a vida, visitam a Igreja, as vinte capelas da via-sacra, as estátuas dos Escadório das Virtudes e os muitos Quartéis existentes no Santuário para os admirarem do ponto de vista artístico, patrimonial e a visita pode ser encarada como forma de lazer. Com as transformações ocorridas nos últimos 20 anos, verifica-se a capacidade que a Romaria teve em se adaptar às mudanças que radicam no contexto socioeconómico e ecológico onde está inserida. A isto não é indiferente o Concílio Vaticano II que se inscreveu num movimento de transformação que influiu sobre a pastoral da Igreja Católica lusitana e sobre o problema candente das romarias. Traduziu-se numa atitude que, no geral, rompeu com um clericalismo fechado e se abriu às realidades “populares”. O conflito entre a Igreja Católica e o catolicismo popular abrandou. É neste sentido que a problemática da “inculturação” veio colorir, entre outros, o clima musical, inclusive dos próprios cânticos. Menos exclusão, mais aceitação de um “popular” antes banido e agora benzido.
  • Direitos associados :
  • TipoCircunstânciaDetentor
    consuetudinárioNão se aplicam direitos de autoria, já que as práticas e conhecimentos associados têm sido transmitidos e reproduzidos por via informal. Comunidade local, comunidade de romeiros, comunidade da Confraria de Nossa Senhora da Peneda
  • Responsável pela documentação :
    Nome: José Pinto (texto, contexto histórico e cultural); Hugo Morango (texto, revisão, etnografia, entrevistas); Jean-Yves Durand (texto, entrevistas)
    Função: Antropólogos
    Data: 2023/01/01
  • Fundamentação do Processo : ver fundamentação do processo
Direção-Geral do Património Cultural Secretário de Estado da Cultura
Logo Por Lisboa Logo QREN Logo FEDER