Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: INPCI_2023_009
  • Domínio: Competências no âmbito de processos e técnicas tradicionais
  • Categoria: Manifestações artísticas e correlacionadas
  • Denominação: Filigrana de Gondomar
  • Outras denominações: Filigrana artesanal de Gondomar
  • Contexto tipológico: O Município de Gondomar é, na atualidade, a “capital da ourivesaria” nacional, sendo o maior centro de produção deste ramo. A filigrana conquistou uma identidade própria no concelho, consistindo numa técnica decorativa de ourivesaria que envolve o trabalho de fios em ouro, prata e mais raramente cobre e latão. De origem ancestral, com raízes no Mediterrâneo Oriental e expandindo-se para Ocidente ao longo do 1º milénio a.C., esta técnica conheceu vários processos evolutivos no decurso da história, que ajudam a explicar as particularidades de execução em diferentes partes do mundo. O norte de Portugal concentrou, nos últimos dois séculos, o maior número de ourives filigraneiros do país, destacando-se, na atualidade, as localidades de Gondomar e Póvoa de Lanhoso. Em Portugal, o trabalho de filigrana resulta da torção de dois fios de metal muito finos, entre duas tábuas de madeira, que é depois batido num cilindro de chapa. O fio assim obtido pode ser soldado sobre uma superfície de metal ou usado como recurso estruturante de uma peça, preenchendo inteiramente as armações dos objetos a executar. As duas técnicas coexistem no concelho de Gondomar, embora os ourives gondomarenses se tenham especializado na filigrana de integração. Pelos dados documentais disponíveis, a ourivesaria desenvolveu-se neste Município a partir do século XVIII, primeiro em São Cosme, alargando-se depois às freguesias vizinhas de Fânzeres, Rio Tinto, Jovim, Valbom e, no século XIX, às de São Pedro da Cova e Foz do Sousa. Esta distribuição permanece na atualidade, continuando São Cosme a concentrar o número mais elevado de oficinas, secundada por Valbom, Jovim, Fânzeres, São Pedro da Cova, Rio Tinto e Foz do Sousa. Doze destas oficinas integram a lista de certificação da Marca Nacional “Filigrana de Portugal” e sete a Rota da Filigrana, uma iniciativa do Município que muito tem contribuído para a difusão deste ofício. A produção de uma peça começa na oficina, com a preparação do fio e armações de paredes finas e desenhos delicados. O enchimento dos esqueletos é depois entregue às enchedeiras ou feitoras, pacientes “rendeiras” que executam esta tarefa nas suas próprias casas. Tal como testemunham as enchedeiras entrevistadas, a filigrana constitui um recurso económico, mas, acima de tudo, uma arte que só pode ser feita com paciência, dedicação e amor, “um ponto de encontro com o eu” ou a “salvação individual” que preenche a solidão, angústias e medos (ver “Documentação X. Documentários e Vídeos Promocionais”: Documentário “Eu nasci para a filigrana” disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oF3nrwWhdZA). A filigrana e todas as técnicas que comportavam um trabalho minucioso e moroso, como a execução das malhas, cordões e trancelins, beneficiaram deste labor feminino, mão-de-obra barata, mas de qualidade, capaz de impor um perfil mais delicado e “miudinho” às rendas de ouro e prata. A filigrana é a única destas atividades que continua a ser executada pelas feitoras, de forma artesanal e em contexto domiciliário. Depois de enchidas, as peças voltam às oficinas para serem soldadas, moldadas e montadas, recebendo finalmente os acabamentos: branqueamento, escovagem e secagem. Este ciclo de vida de uma peça – oficina /enchedeira /oficina -, individualiza a filigrana de Gondomar e estreita laços de sociabilidade na comunidade.
  • Contexto social:
    Grupo(s): A filigrana é produzida por ourives e ourives filigraneiros, que executam as armações e os acabamentos, e pelas enchedeiras (ou feitoras), que preenchem as peças com fio de filigrana.
    Indivíduo(s): Ourives, ourives filigraneiros e enchedeiras.
  • Contexto territorial:
    Local: São Cosme, a que concentra o número mais elevado de oficinas, secundada por Valbom, Jovim, Fânzeres, São Pedro da Cova, Rio Tinto e Foz do Sousa.
    Concelho: Gondomar
    Distrito: Porto
    País: Portugal
    NUTS: Portugal \ Continente \ Norte \ Grande Porto
  • Contexto temporal:
    Periodicidade: A produção da filigrana é regular e contínua ao longo do ano.
    Data(s): O volume de produção pode intensificar-se em meses de maior procura, nomeadamente os que antecedem o período natalício.
  • Caracterização síntese:
    A filigrana, técnica de raiz ancestral que etimologicamente significa “fio de contas”, resulta da torção de dois fios metálicos muito finos. Este pode ser utilizado na decoração de superfícies lisas (filigrana de aplicação) ou no enchimento de estruturas vazadas, dando origem à chamada filigrana de integração, a que melhor individualiza a produção de Gondomar. As armações das peças são executadas nas oficinas pelos ourives, enchidas com fio de filigrana por mulheres, tradicionalmente conhecidas como “enchedeiras” ou feitoras, em ambiente doméstico, regressando novamente às oficinas onde recebem os acabamentos finais. As elaboradas rendas de ouro e prata nascem deste “modo de fazer”, gerado a partir do ciclo de produção oficina-casa-oficina. A filigrana envolve um número alargado de indivíduos, deste e de outros ofícios, estreitando laços económicos, sociais e culturais que conferem uma identidade muito própria a esta comunidade. Um número alargado de avós, pais, maridos, esposas, filhos(as), irmãos(ãs), primos(as) e vizinhos(as) estão umbilicalmente unidos através desta técnica de ourivesaria. O ofício desenvolveu-se a partir do século XVIII, convertendo-se na atividade identitária do concelho nos séculos XIX e XX. Gondomar é, na atualidade, o maior centro de produção de ourivesaria do país. O município reúne algumas unidades de produção de natureza familiar, concentradas sobretudo nas uniões de freguesias de São Cosme, Valbom e Jovim, Fânzeres e São Pedro da Cova, Rio Tinto e Foz do Sousa. Doze delas integram a lista de oficinas certificadas com a Marca Nacional “Filigrana de Portugal”. As enchedeiras no ativo distribuem-se sobretudo pelas localidades de Jovim, Fânzeres, São Pedro da Cova e Foz do Sousa, apresentando uma média de idades superior a 50 anos. Os ourives e enchedeiras mais velhos aprenderam o ofício através da transmissão intergeracional em contexto oficinal, enquanto grande parte dos mais jovens passaram pela formação profissional, sobretudo no CINDOR, o único centro de formação de ourivesaria do país. A produção é regular e contínua ao longo do ano, estando, no entanto, muito dependente das flutuações do mercado e do gosto. A produção é regular e contínua ao longo do ano, estando, no entanto, muito dependente das flutuações do mercado e do gosto.
  • Caracterização desenvolvida:
    A técnica da filigrana, que significa à letra “fio de contas”, está documentada desde o IV milénio, nas civilizações do Próximo Oriente, correspondendo então a um trabalho de granulação. O processo sofreu múltiplas adaptações e metamorfoses ao longo do tempo, o que explica a aplicação do termo a práticas e resultados distintos em diferentes partes do planeta. O processo artesanal da filigrana de Gondomar obedece a trâmites próprios que o distingue a nível nacional. A filigrana gondomarense consiste numa técnica de ourivesaria de carácter decorativo que resulta da torção de dois fios de ouro, prata e mais raramente cobre ou latão, cujo fio é depois achatado num cilindro de chapa. Este pode ser soldado sobre uma superfície lisa de metal ou encher estruturas vazadas (a armação) do mesmo metal, previamente executadas para esse feito. A execução de peças em filigrana, no concelho de Gondomar, deriva de um trabalho de parceria entre os ourives, que nas oficinas preparam o fio e a armação dos objetos, as enchedeiras, artesãs que enchem as peças com fio de filigrana, em contexto domiciliário e novamente os ourives, que soldam a filigrana e dão o acabamento final aos objetos nas suas unidades de produção. A necessidade de mão-de-obra, em períodos de maior procura, estimulou a proliferação de pequenas e médias oficinas de carácter familiar. No entanto, a pobreza do território, a forte concorrência que sempre preencheu o cenário deste “Eldorado” e as crises cíclicas no sector, explicam o envolvimento tradicional de todos – homens, mulheres e crianças /pais, esposas, filhos e filhas / irmãos e irmãs /vizinhos e vizinhas – no trabalho de ourivesaria. Este sucesso foi determinado, também, pela prática de remunerações muito baixas e pela imposição de longas jornadas de trabalho à abundante mão-de-obra braçal. Nos séculos XIX e XX, estas oficinas concentraram um elevado número de “operários saloios”, nas palavras de Joaquim de Vasconcelos, modestos trabalhadores que “comiam o pão com o suor do seu rosto” (Vasconcelos, 15.11.1883). Atualmente tal já não se verifica. Raros são os ourives ou enchedeiras que transmitem a arte aos filhos, apostando, em contrapartida, em percursos profissionais mais estáveis e com melhores remunerações. A formação processa-se maioritariamente em contexto de formação escolar, assumindo o CINDOR (Centro de Formação Profissional da Indústria de Ourivesaria e Relojoaria), criado em dezembro de 1984, a principal opção para os jovens gondomarenses (mas também de outras partes do país) que pretendem aprender e exercer esta atividade. Para muitos formandos, o Centro começa por ser o local de aprendizagem, processo continuado nas oficinas primeiro através de estágios e depois por contratos de trabalho. Outros jovens, como Arlindo Moura ou Conceição Neves, com tradição familiar no ramo da ourivesaria, entraram no CINDOR para fortalecer a sua formação escolar e aperfeiçoar conhecimentos, desenvolvendo depois a atividade nas suas próprias oficinas e dando formação no Centro escolar. Os ourives mais velhos ainda no ativo e sem tradição familiar no ramo aprenderam, no entanto, o ofício em contexto oficinal, com os respetivos mestres. A produção artesanal de filigrana depende dos ourives que mantêm a produção manual. Esta encontra-se fortemente ameaçada pela técnica industrial de injeção, processo que permite colocar no mercado uma maior quantidade de peças a preços mais baixos. Em Gondomar persistem algumas oficinas que continuam a lutar pela preservação da filigrana artesanal. A esmagadora maioria destes homens tem mais de cinquenta anos e uma parte significativa dos ourives revelou não desejar que os seus filhos deem continuidade a esta atividade de produção. A instabilidade do setor da ourivesaria, constantemente sujeito às oscilações do mercado e a insegurança de um ofício que envolve matérias-primas muito dispendiosas, condições de segurança rigorosas e riscos de roubos, constituem as principais causas que explicam esta posição. A maior parte dos filhos destes artesãos optou por outros caminhos profissionais. A faixa etária das enchedeiras é também superior aos cinquenta anos e o trabalho é praticado num contexto doméstico e isolado, no quarto de dormir, sala ou varanda abrigada, sempre perto de uma janela ou fonte natural de luz. A arte da filigrana continua a ser encarada não como uma profissão, mas como um complemento de rendimentos que pode ser ajustado com facilidade a outros afazeres como o serviço de limpeza no exterior ou o cuidar dos netos. Apenas uma das entrevistadas trabalha em casa no horário regular de 40 horas semanais e um salário definido. As restantes recebem um valor por grama, mais elevado para o ouro e mais baixo para a prata. Os baixos valores auferidos e o tempo e esforço despendidos para a sua obtenção, constituem o maior entrave à sobrevivência desta arte artesanal. É difícil precisar o número exato de oficinas de ourivesaria existentes, uma vez que estas são muito flutuantes e dependentes da relação oferta/procura do mercado nacional e internacional. As oficinas aderentes à certificação “Filigrana de Portugal” constituem 17 empresas (ver “Documentação XVII. Relação dos ourives integrantes da Rota da Filigrana, certificados com a marca “Filigrana de Portugal” e participantes no Coração Colaborativo”, contando ainda com a empresa J. Soares Lda.). No caso das enchedeiras, o seu número varia em função da procura de mercado e, considerando o trabalho não declarado que estas mulheres executam, é impossível contabilizá-las. Em 2022, a freguesia de São Cosme de Gondomar continua a registar a maior concentração de oficinas que trabalham a filigrana (13). Seguem-se as freguesias de Valbom (5) e Jovim (4), sendo que a atividade é residual nas restantes freguesias (2 ou menos oficinas identificadas). No total, foram contactadas 28 oficinas, 25 das quais ainda em funcionamento. Em relação às enchedeiras, a definição de um número é ainda mais complexa: por um lado, estas dependem das encomendas requeridas às oficinas, também sujeitas a um mercado muito flutuante; por outro, porque, de facto, não existem registos da sua atividade profissional. Nesse sentido, o volume de trabalho oscila ao longo dos anos, o que se reflete em ausências, por vezes prolongadas, de produção. Neste processo de investigação, foram entrevistadas 17 enchedeiras, embora apenas 12 continuem a exercer esta atividade. Geograficamente, estas mulheres concentram-se maioritariamente na freguesia de Jovim (11) e em menor número nas de São Pedro da Cova (3) e Foz do Sousa (3). O número de enchedeiras inativas é, no entanto, bastante superior, embora todas apresentem idades muito avançadas. COMPETÊNCIAS TÉCNICAS DE OURIVES E ENCHEDEIRAS - PROCESSO DE APRENDIZAGEM A aprendizagem nas oficinas inicia-se pela observação e repetição continuadas até ao domínio das técnicas básicas do ofício: fundir, puxar fio, serrar e cortar, limar solda, “encantilhar”, ou seja, tirar as medidas do esqueleto através da bitola, fundir granitos, soldar e “bufar” no maçarico. A arte de encher começa junto à banca das mães ou de alguém da relação social da jovem, mas também na sala de aula do centro de formação CINDOR. A aprendizagem inicia-se pelos “SS” e pelo consequente domínio do fio, buchela e tesoura. Segue-se o conhecimento da técnica de encaixar, ou seja, de preencher os vazios da armação com os “SS” enrolados. Depois de dominar a execução destes motivos, as enchedeiras aprendem a preparar outros mais complicados como os “SS a beijar” (dois “SS afrontados”), escamas, espirais, cartões e crespos ou rodilhões. REGISTOS DE MEMÓRIA PARA REPRODUÇÃO DE PEÇAS E FORMAS DE REPRESENTAÇÃO Livros de “Defumos” (ou “fumos”, na Póvoa do Lanhoso) ou de “assombros” e desenhos A partir da observação da realidade tridimensional, o ourives verte as formas no papel, estilizando-as no sentido de as adaptar às exigências do trabalho da filigrana. O desenho é depois reproduzido numa armação de metal, o esqueleto, segundo a designação dos ourives gondomarenses. Se a peça é do agrado e suscetível de ser reproduzida várias vezes, o protótipo é aquecido no maçarico de sopro - trabalho realizado outrora com o fogo expelido pela candeia de petróleo, que libertava um fumo gorduroso e negro –, e depois impresso num suporte de papel, o que explica a expressão livro de “defumos”. O desenho pode ser acompanhado por legendas e medidas, quando o mesmo modelo é reproduzido em diferentes tamanhos. Nas peças simples, um único desenho é suficiente para a reprodução futura do objeto, mas nas compostas, cada parte é desenhada e as respetivas medidas registadas. Os livros de “defumos” ou de “assombros” integram os tesouros de uma oficina, encerrando o histórico das criações e a memória geracional e coletiva destes espaços, sendo, em alguns casos, guardados e preservados com todo o sigilo (ver “Documentação II. Livros de Defumos (ou de Assombros), Moldes e Bitolas – Preparação da armação e esqueleto”). Modelos e fontes de inspiração O processo criativo parte da observação da envolvente e das experiências individuais dos criadores, pois toda a realidade conhecida ou imaginada pode ser reproduzida em ouro ou prata. A natureza, representada nas mais diversas espécies de animais, folhas, flores e frutos, constitui, talvez, a mais importante fonte visual de inspiração para a criação de joias em filigrana. Entre os animais, os peixes e uma série de mamíferos contam-se entre os escolhidos, mas os insetos, com as suas formas articuladas e dinâmicas, são os que colhem a maior atenção de artesãos e público em geral. Algumas estruturas arquitetónicas de renome, como as torres Eiffel ou de Pisa e, no caso português, as de Belém e dos Clérigos (com exemplares adquiridos recentemente pelo município e que estão patentes no Museu Municipal de Filigrana) ou a ponte de D. Luís, fazem também parte deste vastíssimo universo de configurações. A estas podem ser acrescentados os veículos de transporte terrestres (desde os carros de bois aos motorizados) e as embarcações tradicionais, entre as quais se destacam as fluviais (barco rabelo, moliceiro da ria de Aveiro) e as de carácter histórico, como a caravela, que foi e continua a ser reproduzida até à exaustão, nos mais diversos tamanhos e adaptações. Os instrumentos musicais contam-se, igualmente, entre as manifestações culturais suscetíveis de ser representadas, ocupando a guitarra portuguesa um lugar privilegiado neste grupo (ver “Documentação I. Peças em filigrana”). A filigrana de Gondomar distingue-se pela execução destas peças emblemáticas e, por vezes, de grandes dimensões, que resultam de armações complexas, estruturadas em múltiplas partes, e que exigem longas horas de enchimento. As formas geométricas materializam também uma boa parte da produção, adaptando-se, nos últimos anos, a linhas mais contemporâneas. Por outro lado, os álbuns de desenhos ou fotografias fornecidas pelos clientes dão igualmente corpo a importantes elementos de inspiração. A memória conjugada com a imaginação permite a estilização das formas no desenho, e o registo do mesmo garante a sua reprodução ao longo de décadas. Entre as peças de natureza religiosa, incluem-se as coroas imperiais de prata na sua cor ou douradas, maiores ou mais pequenas em função das imagens a que se destinavam, salientando-se as de Nossa Senhora e do Seu “Menino”. Como peça de oratório, aplicada a uma imagem sacra ou como pendente de peito, de acordo com a dimensão, os relicários ou custódias contam-se igualmente entre as peças mais frequentes, tendo conquistado maior notoriedade no século XX (Mota, 2014: 81). Podem, no entanto, ser encarados como herdeiros dos “Calvários de prata” dos séculos anteriores, usados pelas lavradeiras dos arredores do Porto (Sousa, 1924: 238). No seu interior ou ao redor do “mostruário” incluem uma cruz e algumas das Arma Christi, os símbolos do sofrimento ou Paixão de Cristo, com particular relevância para a escada, lança, pregos, dados, corda e coroa de espinhos. Outros simulam no interior a exposição do Santíssimo Sacramento (de onde vem o termo custódia) e velas, ou pequenas imagens da Sagrada Família e dos Sagrados Coração de Jesus e de Maria. Diretamente associada à Paixão e Morte de Cristo, a cruz foi um dos motivos mais difundidos na joalharia, só ultrapassada pelo coração. Cruzes de filigrana são referidas abundantemente na documentação, podendo ser executadas integralmente em filigrana ou associadas a outras técnicas de ourivesaria, como a de canevão. No entanto, nenhuma destas tipologias alcançou a procura e conheceu maior número de reproduções como o coração de filigrana, “símbolo de amor sadio que exulta no rumor das romarias nortenhas” (Correia de Azevedo, 1960). O recurso ao coração como motivo decorativo, amulético ou simbólico (realidades que se complementam) perde-se na memória do tempo. Órgão vital do corpo humano, o coração é fonte da vida e por isso entendido, desde cedo, como sede da alma e reservatório interior do homem, das suas sensibilidades, afeições, coragem e vontades (Urech, 1972: 39). FASES PARA A EXECUÇÃO DE UMA PEÇA DE FILIGRANA Fundição (ver “Documentação III. Fases do trabalho de ourives, imagem 2”). Todos os trabalhos de ourivesaria começam com a preparação da liga metálica (ver “Documentação III. Fases do trabalho de ourives, imagem 1”), uma vez que o ouro e a prata são demasiado moles para serem utilizados na sua pureza. Por esta razão, são combinados com outros metais, que os tornam mais duros e tenazes: o ouro com cobre e prata e esta com cobre. Em Gondomar, a liga tradicional de ouro é composta por 80% de ouro puro, correspondendo ao toque de 19,2 quilates (24 quilates/1000 milésimas de pureza), respeitando os restantes 20% a percentagens variáveis de prata e cobre. A liga de prata para a obtenção de fio de filigrana é composta por 98% de metal puro e 2% de cobre (1000/20). Preparada a liga metálica, o metal é colocado num cadinho e levado a fundir na forja. Atingindo o ponto de fusão (cerca de 1064° para o ouro e 961,8° para a prata), o cadinho é retirado da forja com uma tenaz, sendo o metal liquefeito vertido na rilheira de fio, da qual se obtém o lingote ou a barra pronta para ser estirada. Preparação do fio (ver “Documentação III. Fases do trabalho de ourives, imagens 3, 4, 5, 6 e 7”.). Para atingir a espessura desejada, o fio percorre vários utensílios: da rilheira para o cilindro de fio e deste para o banco de puxar fio, onde passa pelas fieiras e, finalmente, pelos damasquilhos e rubis, que são fixados no carrinho de puxar fio. São depois dispostos em meadas na apanhadeira. O fio de filigrana pode apres várias espessuras, não devendo, no entanto, exceder 0,22 mm. O de ouro pode atingir a espessura ínfima de 0,12 mm, a de um “cabelo” na expressão dos ourives de Gondomar, e o de prata 0,15 mm Torção do fio (ver “Documentação III. Fases do trabalho de ourives, imagem 6.”). Este processo resulta da torção de dois fios de ouro, prata ou mais raramente cobre. Tradicionalmente, esta tarefa era feita pela mão experiente de um ourives, que torcia os fios entre duas tábuas, e o aprendiz, que segurava e estendia o fio daí resultante e que adquiriria vários metros de comprimento. O fio assim obtido é posteriormente batido num cilindro de chapa para perder a forma redonda e adaptar-se melhor ao trabalho de enchimento. Atendendo ao carácter complexo e moroso do processo, atualmente grande parte dos ourives compra o fio já preparado, feito de forma mecânica, numa máquina de torcer fio. O Sr. Rui Santos, que aprendeu o ofício com o pai, continua a produzi-lo e a fornecê-lo a muitos ourives. Apesar de ter encerrado a oficina nos inícios deste século, no contexto da crise que então se abateu sobre a ourivesaria, e exercer o trabalho de jardineiro, continua a praticar essa tarefa em horário pós-laboral, uma vez que dispõe de maquinaria para o fazer. Recorda os tempos em que o processo era feito manualmente, quando ajudava o pai a torcer, puxando o fio ao longo da estrada, procurando evitar que empecilhasse e acabasse por partir. Os fios eram depois enrolados nas apanhadeiras, com as quais se formavam as meadas. Preparação da armação e esqueleto (ver “Documentação II. Livros de Defumos (ou de Assombros), Moldes e Bitolas” e “Documentação III. Fases do trabalho de ourives imagens 9, 10, 11, 12 e 13”). As peças de filigrana de integração (a técnica mais desenvolvida em Gondomar) são constituídas pela armação, que corresponde ao contorno da forma, pelo esqueleto, a estrutura interna de cada uma das partes e finalmente o cheio, preenchido com fio de filigrana. A armação pode ser obtida a partir de um desenho pré-existente (ver “Documentação III. Fases do trabalho de ourives, imagem 8”) ou diretamente pela mão inventiva do ourives, se o objetivo for a criação de uma peça única. Nos trabalhos de filigrana, esta é também designada por “virola” e corresponde à estrutura externa das peças obtida através de um fio de chapa batido, ao qual os ourives chamam parede. Se a intenção for reproduzir o objeto várias vezes, o que é mais rentável em termos de fidelidade à forma e gestão de tempo, é possível recorrer a moldes de metal, feitos normalmente de cobre ou latão, que são criados a partir dos desenhos impressos nos livros de “defumos”. Os moldes são executados pelos próprios ourives, que começam por marcar o desenho a lápis na chapa metálica e depois a recortam com uma serra de mão ou tesoura, de acordo com a espessura da mesma. Estes representam, em plano, cada uma das partes de um objeto. O molde é depois contornado com o “fio de parede”, fio achatado e espesso, que define o contorno da peça a trabalhar e que será depois soldado e consolidado. A dimensão do fio externo e interno, destinado à execução da armação e do esqueleto, é medida nas bitolas, utensílios também de chapa de latão ou cobre, que apresentam diferentes recortes escalonados correspondentes a diferentes medidas. O fio é envolvido na bitola que define, assim, o comprimento exato do mesmo a empregar na peça. Este é depois cortado pelas dobras ou adaptado à estrutura. À semelhança do que ocorre com os livros de “defumos”, também os moldes e as bitolas são preservados e cuidadosamente guardados pelos artesãos, garantindo a reprodução exata e segura da peça no futuro. Como o seu número vai crescendo ao longo dos anos, os moldes e as bitolas podem ser identificados com marcas ou siglas como “AR” ou “LÍRIOS” (tal como os encontrados na oficina do Sr. José Alberto de Castro Sousa, em Valbom), códigos igualmente registados nos livros de “defumos” e que permitem a associação imediata ao desenho pretendido. Terminada a execução da armação e esqueleto, a peça está pronta para ser preenchida com o fio de filigrana. Enchimento da peça (ver “Documentação IV. Enchedeiras”) Em Gondomar, o trabalho de “encher” é realizado pelas “enchedeiras” ou “feitoras”, mulheres que realizam esta tarefa em casa, intercalando o serviço doméstico com o da arte da filigrana. Uma pequena banca de ourives ou mesa, arrumada junto à janela do quarto, varanda ou cozinha - para que a luz natural não falte -, uma buchela e uma tesoura compõem os utensílios indispensáveis destas oficinas improvisadas. O fio é manuseado livremente com a buchela e repetidamente cortado com a tesoura, preenchendo gradualmente os vazios do esqueleto. O trabalho é realizado preferencialmente durante o dia, mas se as horas não chegarem para terminar “a obra” deixada pelo patrão, um pequeno candeeiro de mão acompanha-as pela noite dentro, quando o trabalho é muito e a pressão ainda maior. Ao som do tic-tic-tic, nascem e multiplicam-se os “SS”, as escamas, espirais, rodilhões ou crespos, caracóis e cornucópias, os principais motivos executados pelas enchedeiras gondomarenses (ver “Documentação X. Documentários e Vídeos Promocionais”: Documentário “Eu nasci para a filigrana” disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oF3nrwWhdZA ). Os caramujos, ancestrais motivos decorativos, estão também associados à arte da filigrana, mas estes são realizados pelos ourives nas oficinas. A sua execução parte da preparação de um pequeno círculo feito com fio de filigrana, sobre o qual se sobrepõe uma pequena esfera concebida a partir da fusão de uma minúscula argola de metal. Os caramujos são componentes inseparáveis das tradicionais cocas, usadas em brincos, pulseiras e colares, mas também das cruzes de Malta e custódias (ver “Documentação X. Documentários e vídeos promocionais” - Ourivesaria Portuguesa [Arneiro 1969] - Devagar, devagarinho...que é artesanal, https://www.youtube.com/watch?v=k7W9R-xDSyc&feature=emb_title ). Por estreitos laços de vizinhança, o modelo de trabalho estendeu-se rapidamente a outras mulheres do concelho, que encontraram nessa atividade um complemento essencial aos magros recursos familiares. O trabalho por elas realizado consiste no seu cartão de visita pois, patrões e colegas de profissão conseguem, ao fim de alguns anos, identificar a autoria de um “cheio” apenas pela observação e características dos detalhes. As linhas de especialização fazem parte de uma outra realidade observada no concelho, na medida em que, atualmente, as enchedeiras trabalham exclusivamente com prata ou ouro. O enchimento com fio de ouro, de espessura mais reduzida, exige mais horas de trabalho e uma execução mais minuciosa. Por outro lado, no ouro decresce a frequência da colocação de “rabos”, isto é, os pedaços de fio excedente que resulta da execução dos “SS” ou outro motivo criado. Se atendermos que a remuneração destas mulheres está diretamente relacionada com a gramagem de fio que colocam em cada peça e que estes excedentes não exigem grande esforço ou tempo na sua colocação, compreendemos a preferência pelo trabalho de prata, apesar do valor pago pelo enchimento de peças de ouro ser superior. As enchedeiras são uma parte essencial da produção da filigrana de Gondomar e o seu eventual desaparecimento representa a extinção de um modo de fazer com características identitárias muito próprias. Soldadura (ver “Documentação III. Fases do trabalho de ourives, imagens 15 e 16”). Depois de enchidas, as peças voltam para as oficinas para serem soldadas, processo fundamental para fixar e consolidar o cheio criado pelas enchedeiras. Os artigos são colocados sobre uma piúca, tala de barro refratário ou mais raramente sobre uma placa de amianto (material de uso atualmente proibido devido ao seu potencial cancerígeno), polvilhados com solda através da borrachinha e soldados através do maçarico de sopro ou bucal, que projeta o fogo da candeia sobre o metal até a solda atingir o ponto de fusão. Trata-se de uma tarefa muito delicada e que requer muita atenção e experiência, pois um erro pode deitar a perder horas de trabalho. A solda é composta por uma liga de ouro, prata, cobre e índio, este último destinado a baixar o ponto de fusão do composto, tendo substituído o cádmio, cujo uso foi igualmente proibido devido às suas propriedades cancerígenas. Apenas os ourives mais experientes executam esta tarefa, que se destina a consolidar as partes sem fundir o fio de filigrana. Acabamentos (ver “Documentação III. Fases do trabalho de ourives, imagens 17, 18, 19 e 20”). A fase final do processo consiste na montagem das peças. Cada uma das partes pode ainda ser sujeita à embutideira e respetivos embutidores, suporte e utensílios de madeira ou ferro que servem para dar forma côncava ou convexa às superfícies planas. A força do alicate ou do martelo fazem parte também destas práticas, bem como a soldadura ou união por grampos. Um toque de cor pode também completar estes trabalhos, obtido através de pequenas contas de turquesa ou coral ou esmaltes polícromos (ver “Documentação X. Documentários e vídeos promocionais” - Ourivesaria Portuguesa [Arneiro 1969] - Devagar, devagarinho...que é artesanal, https://www.youtube.com/watch?v=k7W9R-xDSyc&feature=emb_title) “quebrando-lhe a intensidade da monotonia em alternadas sensações (…), papoilas, azuléas, malmequeres… em trigais batidos de sol!”, nas poéticas palavras de Pedro Fazenda (1927: 206). No sentido de devolver às peças o brilho natural dos metais, estas são sujeitas ao branqueamento (uma solução de água a ferver com uma pequena quantidade de ácido sulfúrico), sendo depois escovadas com uma escova de metal, água e detergente e finalmente secas no secador. Antes de se generalizar a utilização do “secador” elétrico, a secagem era feita com recurso a serrim de choupo, segundo informação relatada por diversos artesãos (os filigraneiros António Cardoso e Avelino Martins de Castro e douradores Cesarina Pinto e Joaquim Coelho). As peças eram envolvidas em serrim e expostas ao sol. No Inverno, a falta de calor solar era compensada pelo aquecimento do serrim em lume brando, sobre o qual se colocavam depois as peças. UTENSÍLIOS DE TRABALHO (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho”) Os utensílios usados numa oficina de ourivesaria são em número muito elevado e diversificado. A seleção apresentada respeita aos que direta ou indiretamente são usados no processo de execução artesanal da filigrana de Gondomar, explicando-se a função que assumem nesta atividade e respetiva evolução (Ver Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho). Adastra. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 1”). Termo específico de ourives, referente a um ferro “em diminuição” destinado a moldar ou corrigir os aros dos anéis (Bluteau, 1728: vol. 1, 120). No trabalho da filigrana serve também para dar forma a todo o tipo de elementos circulares como folhas e pétalas de flores, contornos de cestas, argolas, entre muitos outros. Alicate de Bicos. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 2”). Utensílio de ferro ou aço, semelhante a uma tenaz, utilizado pelos artífices para apertar, torcer e cortar fios. Apanhadeira, enleadeira, bobine ou bucha (Gondomar). (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 3”). Artefacto de madeira composto por uma peça cónica rotativa onde se formam as meadas (ou “medeixas”) de fio. Aranhola (ou piúca). Peça de uso individual constituída por uma base de madeira ou arame retorcido a servir de pega e uma cobertura de chapa fina e plana formada por um emaranhado de arame redondo, muito fino. Serve de suporte às operações de soldar, recozer e vitrificar esmalte. Em Gondomar emprega-se correntemente a palavra “piúca”. Balança. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 4”). Utensílio indispensável à pesagem dos metais que compõem a liga. Pode ser de vários tipos. As mais antigas respeitam às balanças de mão, constituídas por dois pratos que são equilibrados por meio de pesos. As balanças de meia precisão são formadas por uma base de madeira ou fórmica e uma alavanca em forma de cruz que sustenta os pratos de aço inoxidável e que apresenta na parte superior uma tabela de marcação. As balanças eletrónicas correspondem às mais recentes no mercado, distinguindo-se pela precisão, sensibilidade e capacidade. Até finais do século XX, os vários tipos podiam ser encontrados nas pequenas oficinas de ourivesaria de Gondomar. Banca de Ourives (ou Mesa de Ourives ou Caixão) (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 5”). Peça indispensável à realização dos trabalhos de ouro e prata, servindo de suporte a grande parte das operações. É composta por uma estrutura em forma de caixa ou “fábrica”, onde encaixam normalmente três registos de gavetas. Uma das gavetas é normalmente de caixa dupla, destinada a receber os escaninhos, duas gavetas mais pequenas usadas para guardar pequenos utensílios, peças e outros elementos indispensáveis ao trabalho diário. A de baixo é frequentemente maior e designa-se por gavetão, encontrando-se sempre aberta para receber as limalhas do metal e evitar perdas, sendo, por isso, forrada com folha de metal. O tampo é liso, delimitado por um rebordo de madeira para evitar que os objetos caiam, e uma chapa de metal que serve de suporte ao trabalho do ourives na qual encaixa a estilheira (Sousa, 2000: 87; Mota, 2016). Banco de puxar fio. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 6”). Utensílio fundamental na preparação de fio, consistiu, durante séculos, num banco de madeira comprido munido de um sarilho lateral. Numa das extremidades o banco dispõe de um cilindro unido ao sarilho ou manivela, que o faz girar, e na outra, duas pequenas tábuas de madeira nas quais se prende a fieira ou o damasquilho. O fio é passado entre os vários orifícios da fieira, perdendo espessura e ganhando comprimento. Este processo designa-se de estirar fio. Atualmente estes aparelhos são de metal e acionados por um dispositivo elétrico. Bigorna e tás. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 7”). Instrumento de ferro composto por uma superfície plana ao centro, também designada por praça da bigorna, e duas salientes, uma cónica e outra piramidal, conhecidas como chifres. Esta peça é formada inferiormente por uma extremidade aguçada destinada a fixar a peça num cepo ou base de madeira. A tás distingue-se da bigorna pela ausência das hastes nas extremidades, reduzindo-se à superfície plana, de aço, e com dimensões normalmente inferiores à bigorna. São instrumentos indispensáveis aos ofícios de ourives e ferreiros, destinando-se a bater chapa, aperfeiçoar peças, rebitar e estampar (Sousa: 2000, 76). Bitola. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 8”). Instrumento utilizado como molde, uma unidade de medida para a realização das armações ou elementos decorativos. Consiste numa chapa de metal retangular, com uma extremidade escalonada, sendo que cada um desses cortes equivale a uma medida. O ourives faz rodar o fio batido (a parede) em volta da bitola o número de vezes necessárias para a concretização do tamanho desejado. Borrachinha (ou cacifo ou cacifro). (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 9”). Pequeno recipiente de metal cilíndrico com uma extremidade em bico, destinado a distribuir a solda pelas peças a soldar. Por ser de uso indispensável na banca do ourives filigraneiro, era muitas vezes executada pelo próprio, segundo informação de José de Castro, filigraneiro de Cavadas (Jovim). Buchela. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 10”). Instrumento utilizado maioritariamente para trabalhos de precisão. É uma pinça com as pontas afiadas, usada por ourives e joalheiros para pegar, engatar, dobrar ou separar. É um utensílio fundamental no trabalho das enchedeiras para enrolar o fio de filigrana, juntamente com a tesoura para o cortar. Buril. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 11”). Instrumento de ferro ou aço com a ponta aguçada, preso num pequeno cabo de madeira, destinado a cortar ou gravar metais. Cadinho (ou vaso de fundição). (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 12”). Recipiente de barro refratário, preparado para suportar temperaturas elevadas, utilizado para a fundição das ligas metálicas. Pode ter vários tamanhos e formas. Caixa da Contrastaria. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 13”). Pequena caixa de madeira ou metal destinada ao transporte das peças que eram levadas à Contrastaria. Candeia (a petróleo). (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 14 e 15”). Utensílio usado para dar fogo às peças nas tarefas de soldar e recozer. O fogo da candeia é projetado para os pontos desejados por intermédio de um maçarico de sopro. Foi gradualmente substituída, a partir dos anos setenta, pelo maçarico a gás. Carrinho de puxar fio. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 16”). Utensílio tradicionalmente de madeira formado por uma base retangular, dois rolos em cada extremidade (um deles munido de manivela) e uma estrutura ao centro, na qual se prendem os damasquilhos e os rubis. O fio, depois de passar pelas fieiras no banco de estirar, passa primeiro pelos damasquilhos e depois pelos rubis, sendo formada, no final, a meada na apanhadeira. Os fios assim obtidos são depois torcidos e usados na técnica da filigrana (Sousa: 2000, 79). Cilindro (o mesmo que laminador). (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 17 e 18”). É um aparelho constituído por dois cilindros ou rolos sobrepostos paralelamente, cuja distância entre si é regulada pelo ourives através de um engenho lateral. Para a obtenção de fio, os rolos apresentam sulcos de meia cana, de tamanhos diferentes dispostos em ordem decrescente. O cilindro pode ser acionado manualmente, através de uma manivela lateral, ou por tração elétrica. Esta é mais recente, mas bastante eficiente, rápida e menos desgastante. A engrenagem faz movimentar os dois cilindros, entre os quais se faz passar a barra de metal obtida na rilheira. A operação é repetida sucessivamente, proporcionando a diminuição da grossura e distensão do comprimento do metal. Esta operação é vulgarmente conhecida como estirar fio ou laminar. Em Gondomar a máquina é conhecida sobretudo por cilindro e é um instrumento essencial na primeira fase da preparação do fio de filigrana. Concha da solda. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 19”). Pequeno utensílio circular e ligeiramente côncavo, com uma extremidade alongada para fixação na mesa de ourives, destinado ao depósito da solda a ser utilizada nos trabalhos de ourivesaria. É fundamental no trabalho da filigrana para consolidar o cheio e para unir diferentes partes das peças. Copela. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 20”). De dimensões mais pequenas que o cadinho, munida de uma extremidade circular côncava e um cabo com pega, a copela destina-se a fundir pequenas quantidades de ligas metálicas. Embutideira. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 21 e 22”). Objeto de madeira, ferro ou aço, de forma cilíndrica, paralelepipédica ou cúbica, que apresenta cavidades semiesféricas e de diferentes diâmetros nas superfícies, destinado a atribuir forma côncava ou abaulada às peças ou parte das mesmas. A embutideira era muitas vezes produzida pelo próprio ourives, em madeira de mogno ou outra bastante resistente (segundo informação de António Cardoso), com a dimensão das cavidades adaptadas às peças que os ourives mais produziam. É bastante usada no trabalho da filigrana, para moldar corações, folhas e pétalas de flores entre muitos outros elementos. Embutidores. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 23”). Pequenas ferramentas de ferro, aço ou madeira, com corpo cilíndrico e cabeça esférica numa das extremidades, que servem para comprimir a chapa de metal sobre a embutideira, conferindo-lhe uma forma côncava. Apresentam vários tamanhos adaptando-se, assim, às diferentes cavidades da embutideira. Escovas. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 24”). Utensílios fundamentais nas oficinas e mesas de ourives, respeitando vários tipos e funções. As de uso na banca do artesão apresentam normalmente uma base cilíndrica e cerdas muito macias, de origem animal ou, mais recentemente, sintéticas. Estas são utilizadas para limpar as peças em execução, mesa, estilheira, mãos e recolher a limalha para uma das extremidades do gavetão. As escovas de ensaboar, ação destinada a retirar a gordura e sujidade das peças executadas, são compostas por um cabo de madeira e pelo macio de animal. Os objetos são ensaboados numa mistura de água quente com uma pequena quantidade de amoníaco, detergente ou sabão. Para brunir, tarefa que tem por objetivo dar brilho às peças, são utilizadas escovas com cabo de madeira e fios de latão. Estilheira. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 25”). Pequena peça de madeira em forma de cunha, amovível, serve de apoio ao trabalho do ourives para limar, serrar, polir, engastar, esmaltar. Ferro de crespo ou rodilhões. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 26”). Instrumento de ferro e cabo de madeira específico da mesa das enchedeiras, utilizado para enrolar fio de filigrana. Contém um pequeno orifício na extremidade de metal que serve para fixar o fio e executar os rodilhões, um dos motivos frequentes no enchimento das peças de filigrana em forma de cone; fixado o fio, o ferro é introduzido na embutideira (lâmina de metal com pequenas cavidades), fazendo-se depois um movimento de rotação. Fieira e damasquilho. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 27”). Pequenas barras de ferro ou aço, de diferentes tamanhos, com o interior provido de pequenos orifícios graduados dispostos em ordem decrescente. As placas apresentam escalas em décimas de milímetro e cada um dos orifícios possui um diâmetro próprio. Servem para estirar ou puxar fio, sendo por isso indispensáveis no trabalho da filigrana. Segundo informação de alguns ourives de Gondomar, a diferença entre fieira e damasquilho reside no tamanho dos orifícios, maiores na primeira e mais pequenos no segundo. Ambas as peças são usadas, por isso, no trabalho de filigrana, de forma sequencial, na fase de preparação do fio. Forno ou vaso de fundição. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 28”). Pequenos fornos ou vasos destinados à fundição da liga metálica. Tradicionalmente eram munidos de um fole, uma estrutura de ferro e extremidade em couro integrado numa armação de madeira, destinado a alimentar e avivar o calor da forja. Os fornos de fundição acompanharam a história da energia, passando pelo carvão, petróleo, gás e, atualmente, a eletricidade. Limas e limatões. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 29”). Instrumentos estreitos e oblongos de ferro ou aço, sendo os maiores revestidos por um cabo de madeira para facilitar o manuseio. Servem para desbastar e polir metais. Podem ter um perfil redondo, meia cana, quadrado, plano ou triangular. Apresentam diferentes graus de aspereza: fina, semifina ou grossa. A lima de solda, de grandes dimensões e picadura muito grossa, é fundamental no trabalho de filigrana. É utilizada para reduzir a barra de metal preparada para a solda em pequenas partículas. Os limatões diferem pelo tamanho reduzido, sendo utilizados em peças mais pequenas e delicadas (Sousa, 2000: 85). Maçarico de sopro (Gondomar) ou bucal (Póvoa de Lanhoso). (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 30”). Utensílio usado na arte da ourivesaria desde longa data. É uma peça comprida, oca e aberta nas duas extremidades, com um dos lados mais estreito e curvado em “bico de cegonha”, o que dirige o fogo para a peça. Os objetos a soldar são colocados sobre a piúca e o ourives controla o fogo sobre a obra a soldar soprando através do maçarico. Maçarico a gás. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 31”). Instrumento a gás utilizado para soldar, recozer e fundir pequenas quantidades de metal, sendo mais rápido e menos desgastante do que o maçarico de sopro. Martelo e maço. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 32 e 33”). Ferramentas abundantes nas oficinas de ourivesaria, servem para bater, aplainar, rebitar e pregar. Na globalidade e apesar das especificidades com que são empregues, são constituídos por duas partes: uma extremidade de ferro, conhecida como cabeça e um cabo de madeira para o seu manuseamento. A cabeça pode apresentar diferentes dimensões e formas, ajustando-se a uma determinada função. Os maços diferem destes por serem todos de madeira, com cabeça cilíndrica, sendo mais “macios” e, por isso, não deixam marcas nas lâminas e fios mais finos. Molde. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 34”). Pequenas lâminas de cobre ou latão executados pelos ourives, que representam em plano um objeto ou as partes do mesmo. O molde define o contorno da peça a trabalhar. Palito (pincel de soldadura ou estilete). (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 35”). Utensílio de metal de tamanho reduzido, em forma de lágrima achatada, destinado a aplicar a solda ou o esmalte nas partes requeridas. O termo palito é usado em Gondomar, atendendo à forma e fragilidade do objeto. Em Travassos, o termo palito é usado para designar os ferros usados para enrolar a filigrana. Paquímetro (ou peclise). (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 36”). Instrumento de medida que serve para aferir espessuras. Pião. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 37”). Também conhecido como “furador de mão” ou de corda, é um utensílio constituído por uma vareta de ferro e um punho de madeira, unidos entre si por uma corda que faz girar a agulha disposta na extremidade inferior da vareta. Usado para criar furos no metal, integra o conjunto dos mais antigos instrumentos utilizados em ourivesaria, tendo sido bastante valorizado pela precisão dos furos que executava, apesar de o seu manuseamento exigir muita perícia. No século XX, foi progressivamente substituído pelo furador elétrico, mais rápido e menos exigente em termos de manejo. Punção (marca de ourives). (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 38”). Instrumento de metal com um motivo gravado na extremidade, destinado a marcar as peças de ouro e prata e que permite identificar o seu produtor. Rilheira. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 39”). Utensílio de ferro ou aço, de forma retangular e alongada, munido de um punho para sustentação, sobre o qual os ourives vertem o metal em ponto de fusão. O interior pode ser liso, quando a rilheira é destinada à obtenção de chapa ou munido de canais paralelos e de distintas larguras, para formar os lingotes destinados à produção de fio. A forma destes objetos permanece estável desde há vários séculos. Rubis. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 40”). Pequenas peças circulares de metal (ferro ou aço) que sustentam, no centro, a pedra de rubi, com orifícios de diferentes larguras, mas muito finos. Esta gema apresenta um elevado grau de dureza, sendo ultrapassada apenas pelo diamante. São usados na estiragem do fio e, graças a eles, é possível obter espessuras ínfimas, o que os torna indispensáveis na fase final de preparação do fio de filigrana. Em Gondomar este pode atingir 0,12 mm, no caso do fio de ouro e 0,15 no de prata. Serra de mão. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 41”). Instrumento formado por quatro elementos indispensáveis ao seu manuseamento: uma pega de madeira, um braço quadrangular de metal, uma serra amovível (atualmente em aço temperado e com diferentes calibres) e os "tourets" ou roscas em forma de borboleta, destinados a prender a serra. É utilizada para cortar metal (Sousa, 1997: 49; Sousa, 2000: 90). Tenaz. (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 42, 43 e 44”). Ferramentas de ferro de diferentes tamanhos destinadas à execução de diversas operações. As tenazes de fundição, de corpo estreito e longo, servem para retirar os cadinhos da forja ou prender um objeto ou barra de metal a revenir. As tenazes de estirar, menos compridas, mas mais largas e robustas, são usadas no banco de fio e apresentam a superfície interior da boca rugosa, de modo a impedir a deslocação dos fios durante o processo de estirar. Neste último caso, o braço superior é curvo na extremidade, para evitar que o artífice solte a tenaz durante a operação. As tenazes de uso individual são mais pequenas e destinam-se a dobrar, voltar, sujeitar e recortar fio ou chapa. A pega é de meia cana o que torna mais cómodo o seu manuseio. Podem apresentar ponta plana ou chata, mais ou menos finas, sendo indispensáveis aos trabalhos de limar e dobrar fio. Tesoura (ver “Documentação V. Glossário de utensílios de trabalho, imagem 45”). Utensílio indispensável na mesa das enchedeiras, sendo usado para cortar o fio de filigrana. As de maior dimensão são usadas para cortar lâminas e fios de metal. As de maior dimensão são usadas para cortar lâminas e fios de metal.
  • Manifestações associadas:
    As peças filigranadas produzidas em Gondomar e Póvoa do Lanhoso contribuem para a afirmação cultural e material de algumas das mais emblemáticas romarias do norte do país. Destacam-se a festa de Nossa Senhora da Agonia (Viana do Castelo), onde as mordomas desfilam com um abundante número de peças de ouro cuidadosamente cosidas em peitilhos e o cortejo das mordomas de Vila do Conde pela Festa de São João, com os adornos de ouro a cobrir parte do corpo das mulheres que desfilam. A gondomarense Lúcia Santos, familiarizada com o universo dos ranchos etnográficos desde os 14 anos de idade, desfila desde há vários anos nas Festas de Nossa Senhora da Agonia e outros certames, exibindo peças de filigrana executadas pelos ourives do Município. É de referir o número alargado de ranchos folclóricos existentes em Gondomar, que muito têm contribuído para a difusão das tradições e da joalharia produzida no concelho (ver “Documentação VI. Grupos Etnográficos de Gondomar”). Alguns dos seus membros exercem ou exerceram a profissão de ourives ou feitoras, o que fortalece o conhecimento da relação e uso das peças de ourivesaria com o traje tradicional. Entre eles destaca-se o Rancho Folclórico de Zebreiros, fundado em 1959, que tem vindo a desenvolver, nos últimos anos, uma importante ação em torno do estudo das tradições locais: recolha e preservação de peças do traje regional, incluindo objetos de ourivesaria; fotografias; danças e cantares da região; lendas, rezas, mezinhas e adágios. Para além do reportório tradicional que o grupo transmite, os seus membros são também autores de novas composições, adaptadas aos inúmeros encontros nacionais e internacionais em que participam. É o caso da letra “Aqui está a enchedeira”, composta por alguns elementos do grupo com o apoio de Cidália Soares, membro do Rancho e que exerceu em tempos a profissão de enchedeira. A nova canção foi apresentada na Festa dos 25 Anos do Rancho Folclórico Luz dos Candeeiros (Arrimal, Porto de Mós), e durante a exibição Cidália encheu peças de filigrana enquanto cantava com o grupo: Aqui está a enchedeira Aqui esta a enchedeira, vida minha Com a Buchela na mão Com a buchela na mão Está a fazer o enchimento Está a fazer o enchimento, vida minha Tão lindo é o rodilhão Tão lindo é o rodilhão Está a trabalhar Está a trabalhar, vida minha Com toda a precisão Com toda a precisão Trabalhar a filigrana Trabalhar a filigrana, vida minha A encher o coração A encher o coração Com seus delicados fios Com seus delicados fios, vida minha De oiro adelgaçados De oiro adelgaçados Está a trabalhar Está a trabalhar, vida minha Este belo rendilhado Este belo rendilhado Com lâminas de oiro ou prata Com lâminas de oiro ou prata, vida minha Lindas peças são criadas Lindas peças são criadas Espaços vazios enchidos Espaços vazios enchidos, vida minha Com suas mãos delicadas Com suas mãos delicadas Esses teus cabelos loiros Esses teus cabelos loiros, vida minha Pelas costas ao comprido Pelas costas ao comprido Parecem lindos fios de oiro Parecem lindos fios de oiro, vida minha A martelo rebatidos A martelo rebatidos Não há terra como a nossa Não há terra como a nossa, vida minha Na bela margem do Douro Onde os ourives medrassem Onde os ourives medrassem, vida minha E as mulheres se endoirassem E as mulheres se endoirassem A popularidade dos cortejos e danças etnográficas, o impacto exercido pela quantidade e qualidade do ouro exibido e o número crescente de visitantes que ocorrem a estes certames contribuem para a valorização da ourivesaria tradicional executada nestes dois concelhos, constituindo, também, um estímulo para a sua produção.
  • Contexto transmissão:
    Estado de transmissão activo
    Descrição: Tradicionalmente, a arte da ourivesaria é transmitida de geração em geração, em contexto artesanal e em oficinas familiares através de métodos de participação ativa. No caso dos ourives, a transmissão intergeracional da atividade continua a verificar-se, mas deixou de ser preponderante. As enchedeiras entrevistadas aprenderam esta arte com as mães, irmãs, outros familiares ou vizinhas. Atualmente, o processo de aprendizagem pode ocorrer também no CINDOR (Centro de Formação Profissional da Indústria da Ourivesaria e Relojoaria), com períodos de aperfeiçoamento nas oficinas, em contexto de estágio. Os ourives entrevistados que deram continuidade à profissão dos pais começaram a aprendizagem cedo, entre os sete/oito anos, em paralelo com a das letras e dos números. Nas palavras de Rocha Peixoto, observando e copiando as tarefas do progenitor: “à vista do pai e lentamente”, “o moço, por muito ver” ia “ensaiando e começando pelo simples” (Rocha Peixoto, 1908: 97). No tocante aos aprendizes sem relações familiares com o ofício, a idade de entrada na oficina oscilava, mas, em princípio, ocorria depois dos primeiros anos de Instrução Primária, através de acordos apalavrados normalmente com as mães e selados pela palavra e honra de “vizinhos”. Os testemunhos das enchedeiras entrevistadas revelam idades de começo de aprendizagem muito variáveis, mas maioritariamente entre os 6 e os 13 anos. Os primeiros contactos começaram junto à banca da mãe, depois de cumprido o horário escolar e da rápida elaboração dos “trabalhos de casa”. Normalmente integradas em famílias extensas, com um elevado número de irmãos, referem que geralmente todos (rapazes e raparigas) aprendiam a encher e a ajudar a mãe. Essa tarefa destinava-se, no entanto, sobretudo às filhas, porque os rapazes ingressavam cedo nas oficinas de marcenaria, a outra grande atividade transformadora do concelho. As feitoras começam por aprender a fazer os “SS” e, quando já dominam esta técnica, dão início à arte de encher, ou seja, a de incorporar os motivos nos espaços vazados da armação. Outrora integradas num meio rural e fechado, esta arte satisfazia tanto os pais, que não gostavam que as filhas saíssem para trabalhar, como os maridos. Apesar de muitas terem aprendido em paralelo outros ofícios, como os da tecelagem e costura, e terem passado por algum trabalho no exterior, o casamento atraiu-as novamente ao serviço da filigrana, porque o podem executar em casa, coordenando-o com o “serviço doméstico” e com o cuidar dos maridos e dos filhos (ver “Documentação X. Documentários e Vídeos Promocionais”: Documentário “Eu nasci para a filigrana” disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oF3nrwWhdZA). Em tempos de maior volume de produção, familiares, amigas e vizinhas podiam reunir-se à volta de uma grande mesa, enchendo as peças em grupo entre conversas, risos e alegria, alimentando assim práticas de sociabilidade. Atualmente tal não acontece devido à diminuição da procura e respetiva produção e as enchedeiras que permanecem no ativo trabalham sozinhas, nas suas habitações. O concelho distingue-se, nos dias de hoje, pela existência do único Centro de Formação Profissional da Indústria de Ourivesaria e Relojoaria (CINDOR) a funcionar no país, especializado no ensino e formação deste setor. O Centro foi criado a 26 de dezembro de 1984, tendo sido reconhecido pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional e pela Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal. O CINDOR tem um papel fundamental na formação dos ourives de Gondomar, sendo vários os que por aqui passam na qualidade de formandos e/ou formadores. A oferta formativa orientada no CINDOR apresenta-se como uma alternativa aos moldes tradicionais de produção, procurando assegurar a continuidade deste ramo de atividade, envolvendo os ourives e enchedeiras ativos no processo de transmissão do saber. A capacidade do Centro na angariação de formandos tem contribuído para a divulgação destas artes, ao acolher alunos de todo o território português e inclusive de outras nacionalidades. Para muitos, a aprendizagem neste Centro de Formação começa de raiz, mas outros procuram-no para aperfeiçoar técnicas e renovar conhecimentos. Os formandos mais jovens assumem-se como designers e não como ourives, pretendendo aprender todas as técnicas tradicionais, conjugando-as com as inovações tecnológicas mais recentes. O CINDOR organiza vários cursos e diferentes níveis de especialização, incluindo os relacionados com a filigrana e o enchimento manual. Estes cursos são procurados por homens e mulheres que estão dispostos a aprender ou aperfeiçoar esta prática, mas também a adquirir todo o processo de execução de uma peça de filigrana (ver “Documentação VII. CINDOR - Centro de Formação Profissional da Indústria de Ourivesaria e Relojoaria”). Entre 2014 e 2021, o CINDOR abriu 61 cursos de formação relacionados com técnicas de ourivesaria e filigrana. Os cursos distribuem-se pelas categorias de Formação Modular, Cursos de Educação Adaptados para adultos (EFA) e Cursos no âmbito da medida Vida Ativa e contaram com 1184 inscritos (ver “Documentação VIII. Cursos CINDOR 2014-2021”).
    Data: 2020/10/07
    Modo de transmissão oral
    Idioma(s): Português
    Agente(s) de transmissão: Ourives, enchedeiras de Gondomar, formadores do CINDOR e antigos formandos que iniciaram a sua atividade profissional.
  • Origem / Historial:
    CONDIÇÕES DO TERRITÓRIO O concelho de Gondomar desenvolve-se a oriente da cidade do Porto, acompanhando o rio Douro toda a sua extensão a sul. O rio foi determinante no desenvolvimento da história económica, social e cultural do território, proporcionando alimento e trabalho e constituindo a principal via de circulação de pessoas e bens a montante e jusante. As características geográficas do território condicionaram a sua economia. A produção agrícola marcou a identidade do concelho no decurso da sua história, realidade testemunhada pelas “aldeias” e ricas casas de lavoura disseminadas pela localidade. Por tradição, muitas destas casas entesouravam os seus rendimentos em ricas peças de ouro e prata, fenómeno comum a todos os concelhos limítrofes do Porto e que ajuda a explicar o crescimento do ofício do ouro e da prata também nesta centúria. Rebelo da Costa regista que em muitas freguesias “do campo” dos arredores do Porto, “em cordoens, cadeados, contas, laços, brincos e outras peças todas de ouro maciço”, tinham, cada uma, “duas ou três arrobas deste metal”. E acrescenta que ele mesmo viu na freguesia de S. Cosme (refere também Águas Santas), “suburbanas desta cidade dous Andores em differentes dias festivos, ornados (segundo o gosto da aldêa) com tantas peças de ouro, que pezarão as de cada hum; duas arrobas, e oito arráteis.” (Rebelo da Costa, 1788, XXII). A mesma ideia subsiste no texto do Padre F. J. Patrício, volvidos mais de cem anos, afirmando o autor que “a população rural que cerca a cidade do Porto teve durante séculos o costume de comprar grande numero de cordões e joias de ouro, com que deslumbrava nas romarias e enthesourava em arcas um seguro patrimonio” (Patrício, 4.11.1906). Ao longo da segunda metade do século XIX, este concelho predominantemente agrícola assiste ao desenvolvimento de algumas atividades industriais, particularmente a exploração das minas de carvão de S. Pedro da Cova, a fundição do ferro e os curtumes nas margens do Douro e, acima de tudo, ao extraordinário crescimento das indígenas e históricas indústrias da marcenaria e ourivesaria, como a elas se referiu José Augusto Vieira, em 1887 (T. II, 619-620). Este contexto agrícola e “industrial” pode ajudar a compreender o crescimento de Gondomar enquanto importante centro de ourivesaria na segunda metade de Oitocentos. Na verdade, a abundância de carvão e de pinhais (os “matos” na gíria local) onde abundava o moliço, ambos usados como combustível nas oficinas de ourivesaria, constituiu, certamente, uma causa favorável ao desenvolvimento desta atividade. A este fator podemos juntar os fenómenos do crescimento demográfico e do êxodo do mundo rural para o litoral. A população de Gondomar cresce substancialmente neste período e as proveniências de concelhos do interior como Cinfães, Lamego, Marco de Canavezes, Penafiel, Paredes entre outros, repetem-se nos assentos dos registos paroquiais. As oficinas de ourivesaria acolheram alguma desta mão-de-obra disponível, num tempo em que elas próprias estavam em franco crescimento. ORIGENS E PERCURSO DA FILIGRANA NO DECURSO DA HISTÓRIA A filigrana é uma técnica ancestral de ourivesaria que, quando associada ao trabalho de granulação, aparece já identificada na Civilização Egípcia e Próximo Oriente, no decurso do IV milénio a. C. (Arminjon, 1998, 234). Esta arte terá chegado por volta do século VIII a. C. à Europa Ocidental. A difusão geral da filigrana e do granulado terá ocorrido, no entanto, a partir do século VI a. C., sendo recorrente na ourivesaria de origem grega, etrusca e romana. Aplicada sobretudo como elemento decorativo na ourivesaria carolíngia e românica e, por vezes, como componente integrante na joalharia bizantina, é pouco usada nos períodos gótico e da renascença. O inventário “dos ornamentos e da ourivesaria que estavam na sacristia do mosteiro de Alcobaça”, datado de 1510, refere a existência de cinco alfaias litúrgicas lavradas de fynagrana e fillagrana (os dois termos empregues) entre as peças mais antigas do tesouro (Gomes, 1998: 63-64), sendo de facto, muito raro, o uso deste termo na documentação tardo medieval. Embora a tese careça de uma investigação mais apurada, é possível aventar a hipótese de que o recurso à técnica de filigrana tenha aumentado em Portugal a partir do século XVI, por influência da ourivesaria indiana. A importação de peças dessa origem e a presença de ourives portugueses em terras de além-mar, terão proporcionado o contacto com a ourivesaria e artífices locais que a dominavam desde longa data. No entanto, a filigrana de integração é também usada em peças europeias do século XV (Newman, 1994: 124). Certo é que, a partir do século XVII, a filigrana conhece uma grande difusão na ourivesaria peninsular, sendo aplicada com frequência em pendentes e contas (destinadas a rosários e colares), mas, também, em peças de maior dimensão como cofres, pratos e taças. A novidade reside igualmente no seu emprego como técnica de integração, ou seja, o fio (de ouro ou prata) era usado como elemento estruturante do objeto, preenchendo uma armação, e não como mero componente decorativo ou de aplicação. No primeiro quartel do século XVIII, Bluteau designa-a de “filigrâna” ou “filegrana” e descreve-a como uma “obra delgada de fio torcido de prata ou ouro” (Bluteau, 1728: vol. 4, 122), aproximando assim o termo e forma da atualidade, corroborando igualmente a divulgação desta técnica decorativa na Época Moderna. A execução deste tipo de peças prolonga-se pelo século XVIII, juntamente com as arrecadas, brincos de fuso ou cabaças, alfinetes, corações e cruzes. Em Itália, cidades como Génova, Florença e Veneza distinguiram-se pela produção de filigrana e, em Espanha, Granada e Sevilha foram também grandes centros artísticos desta arte. Por razões que se prendem com um revivalismo bizantino associado às influências artísticas do ocidente (Karastamati, 1997: 249), a filigrana renasce, igualmente, no mediterrâneo oriental a partir do século XVII, nomeadamente na ourivesaria grega e das regiões balcânicas, onde é empregue numa grande variedade de tipologias: revestimento de contas para colares, gargantilhas, brincos, pulseiras, alfinetes, pendentes em forma de cruz, adereços para a cabeça. O seu emprego foi muito popular na joalharia dos séculos XVIII e XIX nos Balcãs. A produção e procura de objetos em filigrana cresceu a partir do século XVIII em toda a Europa, acentuando-se no século XIX. O ofício proliferou em Portugal, concentrando o norte do país, ao longo de Oitocentos, o maior número de ourives filigraneiros e destacando-se centros como Braga, Guimarães, Póvoa de Lanhoso, Porto e, naturalmente, Gondomar. O aumento de profissionais desta arte e as crises regulares no ofício do ouro conduziram aos cíclicos abandonos da atividade e à emigração de muita desta mão-de-obra para fora das fronteiras portuguesas. A documentação refere frequentemente “os ausentes” no Brasil, mas as províncias de Salamanca e Cáceres, na Extremadura espanhola, desenvolveram a produção de filigrana graças à chegada de ourives portugueses em meados do século XIX. Estes ensinaram o modo de trabalhar a filigrana e respetivas formas aos ourives estremenhos, introduzindo um modo de fazer, tipologias e terminologias de ferramentas e joias que subsistiram até aos primórdios deste século, quando a atividade desapareceu na região (Valadés Sierra, 2019 a e b). É neste contexto que se deve enquadrar o extraordinário crescimento da produção de filigrana nas freguesias de São Cosme, Valbom, Fânzeres, São Pedro da Cova, Rio Tinto e Campanhã no decurso dos séculos XIX e XX. A afirmação do gosto por objetos executados a partir desta técnica e o aumento da procura nacional e internacional proporcionaram, certamente, as condições ideais para o desenvolvimento e individualização da filigrana de Gondomar. AS PEÇAS DE FILIGRANA NA HISTÓRIA Os livros de Contraste (Sousa, 2012, 2 vol.) listam as joias de filigrana mais comercializadas no século XIX, incluindo as argolas, arrecadas e brincos de ouro, alfinetes e botões e, em menor número, anéis, chaves para relógios, pulseiras, cordões, colares, grilhões e gargantilhas com laços de filigrana, medalhas e “estrelas”. Esta últimas respeitam as célebres cruzes de Malta que, com o colorido dos esmaltes, conheceram um lugar preponderante no “peito estrelado” da minhota (Costa, 1874: 259). Os objetos de carácter decorativo são raramente arrolados na documentação, mas são registadas cestinhas e “pentes” de filigrana, que anunciam o enorme volume de peças dessa natureza que serão executadas, a partir dos finais do século XIX e em todo o século XX, nas oficinas gondomarenses. Nos livros do Contraste Vicente Manuel de Moura (1815-1908), datadas de 1865 e 1879 e publicadas por Gonçalo Vasconcelos e Sousa (2012, 2 vols.), entre as largas centenas de peças de filigrana elencadas, o coração é arrolado 550 vezes, secundado apenas pela cruz com 119 registos. Simples ou opados (de dupla face) e flamejantes, ou seja, com um remate que representa a estilização de uma chama, símbolo do amor ardente, os corações de filigrana converteram-se no elemento identitário do município de Gondomar. Viajando pelo concelho na década de 80 de Oitocentos, José Augusto Vieira refere-se a Gondomar como a terra “dos afamados cordões de ouro e corações de filigrana” (Vieira, 1887: T. 2, 620) e, nos primórdios do século XX, Rocha Peixoto justifica a então revivescência da arte da filigrana com o trabalho dos ourives gondomarenses, que não tinham deixado de fazer as cruzes e os corações de filigrana tão ao gosto da clientela portuguesa (Rocha Peixoto, 1908: 91). Em 1940, o coração filigranado surge já representado no brasão de Gondomar, constituindo-se como símbolo representativo do trabalho de ourivesaria e testemunho do reconhecimento da comunidade a uma das mais importantes atividades económicas do concelho. NASCIMENTO E AFIRMAÇÃO DA OURIVESARIA EM GONDOMAR As mais antigas fontes documentais que registam a presença de ourives no território de Gondomar remontam ao século XVIII. Factos históricos confirmam a exploração de minas por parte dos romanos nas serras de Santa Justa, Pias, Facho, Santa Iria e Banjas, em Melres (Kundisoya, 2018: 48). No entanto, não é possível estabelecer a relação entre estas explorações e a afirmação do concelho de Gondomar enquanto centro de produção aurífero. As Memórias Paroquiais de Rio Tinto, de 1758, corroboram esta constatação. Na resposta ao inquérito nacional, o pároco refere que em Valongo, na serra de Santa Justa, “ha muitas grutas e caves subterrâneas, he sem duvida que dos seus fojos se tirou no tempo dos romanos muita quantidade de ouro”. Mas acrescenta que, “não ha muitos annos, sendo vivo o Senhor Rei D. Joam o 5º por ordem sua veio hum mineiro a esta terra, e dizem que achou ouro, o qual não prodysio por não corresponder aganancia a despeza” (ANTT, 1758, vol. 32, nº 134, fl. 814), ou seja, por não ser rentável a sua exploração. Por outro lado, algumas formas características de objetos fabricados em Gondomar como a conta, a lúnula, o círculo, o triângulo e o fuso são, de facto, soluções atemporais que podem ser encontradas nas mais primitivas obras de ourivesaria. No entanto, a ideia de uma continuidade laboral não tem qualquer fundamento histórico. As características do fio de filigrana e os modos de o executar variam bastante de época para época e de região para região, chamando-se filigrana a realidades muito distintas. Por outro lado, tal como se demonstrou, o emprego da técnica da filigrana na ourivesaria ocidental não foi contínuo, tendo sido menos usado durante os séculos XIV e XV e tendendo a reaparecer a partir de Quinhentos. Os volumes das Listas de Ordenanças conservados no AHMP, relativos a anos espaçados da segunda metade do século XVIII, permitem conhecer os nomes, idades e moradas de algumas dezenas de ourives e respetiva descendência, arrolados para efeitos de alistamento militar. Através destas listagens é possível apurar, entre pais e filhos, cerca de 75 ourives em São Cosme, núcleo hegemónico desta atividade, proliferando em lugares como Quintã, Taralhão, Pevidal, Prelada, Cavadas, Pedreira, Gondomarinho e Aguiar. Esta era secundada, por ordem de quantidade, pelas freguesias limítrofes de Fânzeres, Valbom e Rio Tinto (ver “Documentação IX. Tratamento das Fontes. Gráficos 1 e 2”), sendo nesta última identificados cinco lapidários e um cravador. O número de ourives cresce no decurso da segunda metade do século XVIII, alargando-se na década de oitenta à freguesia de Jovim, na qual foram arrolados dois ourives e alguns filhos de lavradores que estavam a aprender ou já exerciam os ofícios de ourives e de lapidário no Porto. Esta informação é corroborada pelos registos setecentistas da Irmandade de Santo Elói da mesma cidade, à qual estavam ligados dezenas de ourives do ouro e cravadores de pedraria, naturais de Gondomar (Sousa, 2003: 337). Estes estavam integrados num ajuntamento próprio de S. Cosme, freguesia que concentrava o maior número destes profissionais, dispondo do seu próprio Procurador, o que testemunha uma identidade de grupo em relação aos colegas portuenses de profissão. Esta distribuição permite identificar a génese da atividade aurífera no concelho que se afirmará, significativamente, a partir de meados do século XIX. As Listas de Ordenanças demonstram, assim, as estreitas ligações de trabalho dos jovens ourives e lapidários de Gondomar à cidade vizinha. Nelas referem-se rapazes “aprendiz de ourives no Porto”, “aprendiz de ourives com o Manuel Salvador Mestre na Rua do Loureiro”, “aprendiz de lapidário com o seu irmão António oficial de ourives no Porto”, “lapidário ausente na cidade do Porto”, “ourives ausente na cidade do Porto com sua logea” ou simplesmente “ourives no Porto”. Para além dos que aprendiam, residiam e trabalhavam na cidade, por vezes, detentores do seu próprio estabelecimento, outros havia ausentes “na cidade de Braga onde trabalha por ourives” (A-PUB/4910 (1), fl. 49v), “aprendiz da arte ausente em Lisboa”, bem como ourives e lapidários no Brasil (A-PUB /4911 (3), fl. 49v). Estas fontes testemunham a presença de um núcleo razoável de profissionais em São Cosme e uma tendência crescente nas freguesias envolventes, mantendo o território fortes ligações à cidade do Porto, à qual estava umbilicalmente ligado para a obtenção da matéria-prima, aprendizagem, examinação para progressão no ofício e relações comerciais. As Listas de Ordenanças distinguem as diferentes categorias profissionais – aprendiz, oficial e mestre -, especificando, nalguns casos, serem “ourives do ouro” e “examinados”, diferenciando os lapidários e um cravador e nada mais. A especialização de ourives filigraneiro surgiu mais tarde, na segunda metade do século XIX, quando o aumento da procura justificou a proliferação de uma mão-de-obra especializada, rápida e eficaz, capaz de satisfazer as exigências do mercado. As vicissitudes políticas, económicas e sociais provocadas, primeiro pelas invasões francesas (1807-1811), depois pelas lutas entre absolutistas e liberais (1820-1851) assinaladas por vários episódios de guerra civil, conduziram à paralisação da ourivesaria portuguesa (Costa, 1926: 14) na primeira metade do século XIX. As informações recolhidas nos registos paroquiais do concelho de Gondomar, de 1861 (quando as profissões dos noivos começam a ser indicadas) e 1911 (disponíveis em linha no ADP), conjugada com as recolhidas nos Livros dos termos de fianças para o recrutamento do exército e armada (1857 – 1939) (ver “Documentação IX. Tratamento das Fontes. Gráficos 3 a 7”), evidenciam a expansão do ofício ao longo da segunda metade daquele século. A partir deste período, são criadas as bases para o nascimento da “capital da ourivesaria” como hoje a conhecemos. Partindo de S. Cosme, o número de oficinas cresceu exponencialmente para as freguesias vizinhas, tal como já vinha a ser evidenciado desde o século XVIII, com particular evidência para as de Valbom, Fânzeres, S. Pedro da Cova, Rio Tinto e Jovim. O censo industrial de 1881 corrobora estes dados, confirmando uma maior concentração de oficinas em S. Cosme, secundada agora por Valbom em franco crescimento, sendo igualmente notório o crescimento nas freguesias limítrofes (ver “Documentação IX. Tratamento das Fontes. Gráficos 8 a 18”). As pequenas oficinas de carácter familiar proliferaram ao longo da segunda metade do século XIX e XX. O Inquérito Industrial de 1881 narra, ainda, a realidade de operários hospedados e alimentados pelos patrões e de oficiais tarefeiros que trabalhavam na sua própria casa para outros artesãos, o que multiplicava o número dos envolvidos no processo. Refere, igualmente, que a maioria das oficinas empregava entre 8 a 10 trabalhadores, os quais auferiam modestos salários, incluindo “casa, cama e mesa”. A aprendizagem em contexto oficinal durava entre seis e sete anos e, durante este período de tempo, o aprendiz não recebia salário, mas apenas alojamento e alimentação. A segunda metade do século XIX ficou, no entanto, marcada pelas fraudes regulares patentes na aplicação de toques muito baixos nos objetos de ouro e prata, que conduziram ao descrédito da ourivesaria portuguesa, atormentada ainda por uma fortíssima concorrência externa oriunda de países como França, Alemanha e Áustria. O vazio legal impossibilitava quaisquer tentativas de controle por parte de contrastes, ensaiadores ou municípios (Costa, 1926: 15). Para tentar regular e controlar a indústria e comércio dos ourives, a braços com grandes dificuldades, foram criadas, pelo decreto de 10 de fevereiro de 1886, depois de alguns anos de negociação política e sob a Administração Geral da Casa da Moeda, as Contrastarias de Lisboa, Porto e Braga (esta extinta em 1911). Em 1887, as contrastarias começaram a marcar e a proceder às anotações de marcas dos ourives da área envolvente. A 15 de janeiro desse mesmo ano, o primeiro fabricante a registar-se na do Porto foi José Alves de Almeida, natural de Santa Cruz de Jovim, mas residente em São Cosme, o que revela o peso que os ourives gondomarenses assumiam na região do Porto. Era detentor de uma marca com o desenho de um compasso aberto e a inicial J (CCM, Matrículas dos Fabricantes, 1887, nº 1). Entre janeiro de 1887 e abril de 1904, o número de ourives de Gondomar registados nos livros de Matrículas dos Fabricantes e Marcas Registadas na Contrastaria do Porto foi de 269, num universo total de 848 (ver “Documentação IX. Tratamento das Fontes. Gráfico 19”). O elevado número de fabricantes em Gondomar e os transtornos suscitados pelas frequentes deslocações à cidade, justificaram o pedido ao Governo para o estabelecimento de uma repartição de contrastaria neste concelho: em 1900 é criada uma Delegação da Contrastaria do Porto, encerrada uns meses depois e, em 1913, é finalmente aberta a Contrastaria de Gondomar. De acordo com os dados fornecidos pelo INCM, a Delegação de Gondomar, com um quadro de pessoal composto por 18 indivíduos, tinha rececionado, até setembro do ano de 2019, 1 475 784 artefactos de metal precioso, o correspondente a 4 585,4 kg de peso. Estes valores reúnem 61% do volume de peças marcadas no norte do país (Porto e Gondomar) e 48% do total de peças ensaiadas e marcadas a nível nacional no ano transato. A importância da Contrastaria de Gondomar revela-se, neste sentido, pelos números e percentagens apresentados. Os Diretórios Comerciais da cidade do Porto corroboram, igualmente, esta importância conquistada pela ourivesaria gondomarense, que justificava a criação de uma Contrastaria na localidade. A partir de 1905, estes almanaques comerciais (período estudado entre 1832-1982) passam a dedicar um espaço próprio à ourivesaria de Gondomar, constituindo uma fonte fundamental para o conhecimento da atividade no concelho, ao longo do século XX. O levantamento exaustivo dos dados permite identificar os momentos de expansão e retração provocadas por crises cíclicas que se abatiam sobre o ofício, que se manifestavam em quebras bruscas de produção e, consequentemente, agravavam significativamente as condições da mão de obra. Prolongando a tendência histórica, São Cosme continuava, no início do século XX, a concentrar o maior número de artesãos, alargando-se esta tendência às freguesias de Valbom e Fânzeres depois de 1915 (ver “Documentação IX. Tratamento das Fontes. Gráficos 20 e 21”). No último quartel do século XIX, a ourivesaria constituía um dos fatores mais ativos de crescimento económico do concelho, juntamente com a marcenaria. A análise comparativa dos nomes de ourives conhecidos nas fontes dos séculos XVIII, XIX e XX e os ativos na atualidade, atesta o predomínio de algumas famílias nesta arte no quadro do município. Os França, Cardoso, Martins, Castro, Neves, Vigário, Rosas e Moura fundaram pequenas e médias unidades oficinais, transmitindo um modo de fazer que passou de geração em geração, estreitando laços entre si por via de casamentos. Arlindo Moura, um jovem ourives de 31 anos, exemplifica bem esta realidade ao representar a sexta geração de uma importante família de ourives, os Moura, que se uniram por via de casamento aos Rosas de Portugal, grupo incontornável na memória da ourivesaria do concelho. É descendente do “Moura da Capela”, duplo operário que trabalhava durante o dia nas minas de carvão de São Pedro da Cova e, pela noite dentro, na banca de ourives. Em 1948, o Jornal de Notícias publicava uma fotografia desta vastíssima família “de artífices ourives” de Aguiar, no contexto das bodas de ouro dos patriarcas João Martins Marques e Margarida Martins Pereira. O grupo fotografado contava então com uma descendência de 14 filhos, 51 netos e 1 bisneto “de colo” (Ver Notícia "Um casal de septuagenários gondomarenses"). Rocha Peixoto, no início do século XX, observou diretamente estas unidades familiares, “com as mulheres, as irmãs, as filhas e os rapazes cooperando” (1908: 97). Volvidos vinte anos, Pedro Fazenda, após percorrer o território do concelho e visitar inúmeras oficinas “da indústria doméstica e hereditária da região”, descreve o “desconforto” da arquitetura destas unidades de produção, “uma caixa rectangular de granito com uma separação interna – laboratório e enxerga”, lúgubres, tocadas por magros raios de luz e vento fustigante. O modesto ourives de Gondomar, “à banca com a família dezoito horas quási ininterruptas” (Fazenda, 1927: 208 e 211) compunha as filigranas e encadeava as malhas. Ao longo do século XX, a produção gondomarense continuou a ser dominada por pequenas oficinas familiares dependentes das grandes empresas que lhes encomendavam obra e colocavam os seus produtos no mercado. Em 1933, na carta que escreve ao Administrador do Município de Gondomar, o Presidente da Associação de Classes de Ourives de Gondomar traça um cenário idêntico ao exposto pelos autores citados: “(…) é, deveras tormentosa a vida desta classe (…) sujeitarem-se pequenas indústrias a extenuantes vigílias, para fabricar, por baixos preços, metais fornecidos pelos grandes negociantes, persistindo na adopção de um longo horário de trabalho -, tudo isto representa para a classe, não já somente um desprezo de si mesma, mas, o que muito é também, um prejuízo irremediável para o progresso desta indústria (ADP – C/4/10/12 – 10.6)”. Alguns dos fabricantes destas famílias, sozinhos ou unidos entre si, cresceram e fundaram empresas de referência. Os Rosas de Portugal nasceram em Gondomar, como assevera a imponente, mas atualmente devoluta fábrica erguida na Rua 5 de Outubro, 27 (S. Cosme). A sua origem é idêntica à de tantas outras, nascida do trabalho árduo do seu fundador Domingos Martins Ferreira, natural de Fânzeres, numa pequena oficina montada na humilde casa dos seus pais. Como muitos destes pequenos proprietários de oficinas, “trabalhou por horas intermináveis da noite, viu nascer mil vezes o sol agarrado à banca do ofício” (Correia de Azevedo, 1960, V). O casamento com D. Ana dos Santos Rosas, filha de Mateus dos Santos Rosas, fabricante de laças e cordões, trouxe um novo impulso ao seu futuro de ourives. A mulher era também artesã do ofício, tendo aprendido como tantas filhas de ourives a arte na oficina do pai. A sua especialidade consistia nas malhas e bolsas de renda, arte que alicerçou a fortuna da sua casa, que ensinou às filhas e a centenas de mulheres de e para lá das fronteiras de Gondomar. Desta pequena oficina nasceu a fábrica Rosas de Portugal. A história de grande parte das empresas gondomarenses de ourivesaria começou da mesma maneira; de pequenas oficinas a fábricas de produção. Joaquim Monteiro, falecido em 2019 com 93 anos, aprendeu o ofício com o pai, o ourives José Moreira de Sousa. Depois da escola, os nove irmãos iam para a oficina aprender esta profissão. Realizado o exame da 4ª classe, alguns continuaram na oficina do progenitor e dois procuraram a sorte noutras terras: um no Brasil, outro no Porto. Fez assim parte da “geração da 4ª classe”, como tristemente a apelidou, constantemente fustigados pela forte concorrência que assombrava a profissão que nunca foi capaz de se organizar como grupo, segundo as suas próprias palavras. Um pequeno número proliferou e singrou no ramo, mas a maioria nunca passou da mais humilde condição, trabalhando em casa dos “patrões” ou na sua própria habitação, em penosas condições laborais. A maior parte não conheceu outra formação profissional senão a da oficina, tendo dedicado seis a sete décadas da sua vida à arte da filigrana, sem nunca terem conseguido obter a sua própria marca de ourives. As peças elaboradas por centenas destes artesãos foram e continuam a ser marcadas com a punção de alguns ourives de renome para os quais trabalham, enquanto os seus nomes atravessam como sombras o devir da História. O panorama era dominado por pequenas oficinas sujeitas a longas horas de trabalho, produzindo com os metais fornecidos pelos grandes comerciantes e auferindo quantias muito baixas pelas delicadas joias que executavam. O Censo Industrial de 1972, reitera a produção de “joias e artigos de ouro” como atividade predominante no concelho, ocupando as oficinas com menos de cinco trabalhadores cerca de 47% do total contra 25% com um número superior. O crescimento contínuo do número de ourives e oficinas a laborar em Gondomar, nos séculos XIX e XX, a forte concorrência sentida no sector e as constantes flutuações do mercado, com picos de produção secundados por períodos de crise e retração, foram, neste concelho, compensados com o aumento da mão-de-obra proporcionada pela participação de todos os membros da família, inclusive mulheres e filhas dos artesãos, e pela imposição de horários de trabalho prolongados. Desta forma, os ourives de Gondomar puderam praticar preços muito baixos e colocar com mais facilidade os seus produtos no mercado. Este elevado número de oficinas sempre dependeu, no entanto, da conjuntura económica internacional e do volume da procura. Em períodos de estabilidade, tal como se registou na década de 80 do século XX, verifica-se um crescimento acentuado destas unidades de produção. Em contrapartida, em períodos de crise, como o que ocorreu em 2008 e mais recentemente com a COVID 19 (2020-2022), o número de oficinas decai, bem como da mão-de-obra a elas afeta. A FILIGRANA DE GONDOMAR Entre as técnicas associadas ao trabalho do ouro e da prata, a filigrana foi a que conheceu um maior desenvolvimento no concelho de Gondomar, tornando-se indissociável do município. Nas fontes primárias estudadas não é possível, no entanto, separar a filigrana da ourivesaria, uma vez que a primeira está intrinsecamente ligada à segunda; quando interrogados, os artífices apresentam-se sempre como ourives e não como filigraneiros. Apenas nos anúncios publicitários do século XX, presentes nos almanaques comerciais do Porto, é possível encontrar a referência à especialidade de ourives filigraneiro, quando a procura das joias e peças de filigrana se encontrava em alta e era necessário diferenciá-la de outras técnicas de ourivesaria. Por esta razão, as causas e identificação exata da origem e desenvolvimento do trabalho de filigrana não são fáceis de apurar. Enquanto especialidade do ramo da ourivesaria, a sua produção dependeu sempre das flutuações do mercado, diretamente relacionadas com as modas e os gostos. A informação recolhida em alguns relatos do último quartel do século XIX permite confirmar, no entanto, que os ourives gondomarenses se distinguiam já pelo labor da filigrana. Em 1874, Pinho Leal, referindo-se a S. Cosme, escreve que se fabricavam “n’esta freguesia muitas obras de filigrana de oiro e prata e artefações de marcenaria” (Leal, 1874: vol. 3, 308). Em Minho Pittoresco (1ª ed. 1887), José Augusto Vieira destaca as “industrias” da “índegena” marcenaria e da “histórica” ourivesaria, “tão notável sobretudo pelas delicadíssimas filigranas, que tão admiradas são onde quer que apareçam”. Nas palavras do autor, “o carvão, a filigrana e o nabo, eis ahi os tres symbolos de Gondomar, d’esta boa e antiga terra portugueza […]”, terra dos “afamados corações de ouro e os corações de filigrana, que são o enlevo e a vaidade das lavradeiras do Minho, e a mais encantadora lembrança, que o touriste pode trazer do concelho de Gondomar.” (Vieira, 1886, vol. II, 601 e 620). Na Exposição de Ourivesaria e Joalheria Nacional que ocorreu no Palácio de Cristal do Porto, no final de 1883, Joaquim de Vasconcelos escreve sobre a “obra da aldeia na exposição” e tira o “chapéu” “ao operário de S. Cosme”, louvando toda a povoação do concelho de Gondomar por “possuir similhante industria”. Referia-se às filigranas executadas pelo “operário saloio” e, em concreto, às do ourives filigraneiro Albino Coutinho Junior, impressionado pela qualidade do trabalho e pelos preços “de tal modo reduzidos” que despertaram o seu “espanto de curioso”. E pergunta “Como se póde fazer similhante obra por similhante preço? Vá o leitor a S. Cosme e achará a chave do enygma.” (Vasconcelos, 15.11.1883). Os ourives gondomarenses conquistaram, de facto, a simpatia dos visitantes do “certâmen”, apresentando “um grupo de filhas de ourives filigraneiros” que executaram, “à vista do público”, “a renda urdida” com “lindos e reluzentes fios de metais preciosos, produzindo sensação” (Costa, 1922: 88). Coutinho Junior morreu no Brasil, em 1899, com 55 anos, mas a esposa e os filhos deram continuidade ao ofício. Laurindo da Costa prestou-lhes homenagem em 1922, ao incluir uma fotografia da viúva e de todos os filhos na sua obra Artistas Portugueses, sem os identificar. A devida homenagem surge numa notícia d’O Tripeiro de 1962 (Ribeiro, 1962: 315), na qual são publicadas duas fotografias de família: a mesma incluída por Laurindo da Costa na sua obra e uma outra com Rosa de Castro Nogueira, viúva de Coutinho Junior, então com 90 anos e quatro netas, todas enchedeiras. Rosa havia participado na Exposição de 1883, encontrando-se então “entre as mais jovens filigraneiras” que ali exibiram “ao público os primores da sua arte” (Ribeiro, 1962: 315). Na primeira década do século XX, Rocha Peixoto associa diretamente a produção da filigrana às freguesias de S. Cosme e de Valbom e, com menor expressão, às de Rio Tinto, Fânzeres e S. Pedro da Cova, juntamente com Travassos, Oliveira e Sobradelo do concelho da Póvoa de Lanhoso, “exclusivamente votados”, estas últimas, “à profissão de conteiros” (Rocha Peixoto, 1908: 85). Refere igualmente que, entre as principais causas de descrédito que a ourivesaria portuguesa atravessava, se encontravam as ligas de cobre e ouro que deste só “tinham vestígio” e da filigrana de prata que “chegava ao seu destino toda negra, tal a quantidade de estanho dominante”, fazendo com que fossem encerradas as portas da Galiza, América, Brasil e África, e se acentuasse a desconfiança interna em relação aos nossos produtos de ouro e de prata. Acrescenta, no entanto, que a revivescência da arte da filigrana que se verificava no início do século XX, se deveu em parte aos ourives de Gondomar que nunca tinham deixado de fazer as cruzes e os corações de filigrana, tão ao gosto da clientela portuguesa (Rocha Peixoto, 1908: 91). Os filigraneiros de Gondomar distanciavam-se, assim, dos seus colegas de Guimarães e Braga, profundamente abalados com os escândalos de fraudes que lhes foram imputados. O prestígio angariado pelos artesãos gondomarenses é novamente atestado no almanaque comercial e industrial do Porto, de 1916, no qual se escreve que “tudo quanto há de mais superior em ourivesaria, especialmente em filigrana de prata e ouro, é exclusivo deste concelho, bem como a marcenaria.” (Costa, 1916: 22) e, em 1927, Pedro Fazenda afirma que “o optimum da filigrana é Gondomar” (Fazenda, 1927: 205). No decurso da primeira metade do século XX, os ourives filigraneiros de Gondomar conquistaram, de facto, o domínio sobre a produção e qualidade da filigrana no norte de Portugal. Natércia de Figueiredo escrevia, em 1950, que os artistas de Gondomar eram os que mais e melhor honravam a indústria da filigrana. E acrescenta que, em S. Cosme, “terrinha airosa e saudável”, executavam-se primorosamente as caravelas filigranadas “que tem encantado portugueses e estrangeiros” (1950: 276). Em 1956, o Santuário de Fátima, no sentido de gratificar a passagem do cardeal Roncalli, então arcebispo de Veneza e futuro Papa João XXIII, ofereceu ao ilustre visitante um cálice e respetiva patena. O conjunto foi executado no Porto, mas o trabalho de filigrana que revestiu o cálice e a patena foi “confiado a uma oficina especializada de Valbom”, tendo a filigrana sido escolhida “por ser esta uma interessante especialidade tradicional da terra portuguesa, que muitos invejariam e continua a marcar a sobrevivência de um dos nossos melhores artesanatos, com grande desenvolvimento no norte do país, sobretudo nos arredores do Porto (Gondomar [S. Cosme] e Valbom)” (Coutinho, 1962: 105-106). O reconhecimento da comunidade de Gondomar aos ourives e à filigrana em particular havia já sido assegurado a partir de 1940, quando o coração filigranado foi integrado no brasão concelhio e definitivamente assumido como valor identitário. Eternizava-se, deste modo, a obra de filigraneiro, “o trabalho humilde e caseiro que, quase sempre, passa de pais a filhos, através de gerações, como honrosa tradição artesanal”, tal como escreveu Campos Ribeiro, em 1962 (Série VI, Ano II, 315). O trabalhado do ouro e da prata foi passando, assim, de geração em geração, perpetuando algumas famílias esta prática até aos nossos dias, em contexto oficinal e artesanal. A escassez de recursos num concelho predominantemente rural, o crescimento contínuo do número de ourives e oficinas a laborar em Gondomar, a enorme concorrência vivenciada no sector e as constantes flutuações do mercado, com picos de produção secundados por períodos de crise e retração, estimularam o envolvimento de um número alargado de obreiros e a imposição de horários de trabalho prolongados. Os ourives filigraneiros de Gondomar puderam, desta forma, praticar preços muito baixos, que tanto surpreenderam Joaquim de Vasconcelos, e colocar os seus produtos num mercado fortemente competitivo. A filigrana e todas as técnicas que comportavam um trabalho minucioso e moroso, como as malhas, cordões e trancelins, beneficiaram do labor feminino, mão-de-obra barata, mas de grande qualidade, capaz de criar rendas delicadas e “miudinhas” em ouro e prata. Mulheres e filhas de ourives ensinaram a arte a outros familiares e vizinhas que, por sua vez, transmitiram o conhecimento no seu local de residência. O número de feitoras multiplicou-se, convertendo-se numa particularidade identitária da ourivesaria de Gondomar, mas associada ao trabalho de uma população abundante e desfavorecida. As crises que afetam a produção e o número de ourives e enchedeiras envolvidas na produção da filigrana são endémicas. Nos últimos anos, no entanto, a Câmara Municipal de Gondomar tem assumido um papel preponderante na promoção da filigrana artesanal do concelho e respetiva sobrevivência deste processo. A criação da Rota da Filigrana (2016), a certificação desta técnica em parceria com a Póvoa de Lanhoso (2017), as múltiplas participações em feiras nacionais e internacionais de Turismo, bem como a recente inauguração do Museu Municipal da Filigrana (maio 2022), contam-se entre as várias iniciativas que têm sido determinantes na divulgação e consequente aumento da procura deste bem patrimonial (ver “Documentação XVIII. Atividades promovidas pela CMG entre 2014-2022”).
  • Direitos associados :
  • TipoCircunstânciaDetentor
    Consuetudinário LocalO modo de fazer é transmitido de geração em geração, por via oral, pelos ourives de Gondomar. Ourives e Enchedeiras de Gondomar
    Propriedade IndustrialPropriedade Industrial (os Municípios de Gondomar e da Póvoa de Lanhoso apresentaram, em outubro de 2018, o pedido de registo da marca de certificação “Filigrana de Portugal” – documentos comprovativos disponíveis em suporte digital no Matriz PCI). Ourives e Enchedeiras de Gondomar
  • Responsável pela documentação :
    Nome: Ana Cristina Sousa (Investigador responsável); Diana Felícia (Investigador)
    Função: Docente do Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (DCTP-FLUP); Doutoranda Estudos do Património - variante História da Arte (DCTP-FLUP).
    Data: 2022/12/19
  • Fundamentação do Processo : ver fundamentação do processo
Direção-Geral do Património Cultural Secretário de Estado da Cultura
Logo Por Lisboa Logo QREN Logo FEDER