Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: PROC/0000000118
  • Domínio: Práticas sociais, rituais e eventos festivos
  • Categoria: Festividades cíclicas
  • Denominação: Festas em Honra de Nossa Senhora da Nazaré
  • Contexto territorial:
    Local: Sítio da Nazaré
    Freguesia: Nazaré
    Concelho: Nazaré
    Distrito: Leiria
    País: Portugal
  • Caracterização síntese:
    Estas festividades são na sua essência devocionais e compreendem diversas etapas e elementos espirituais singulares e relevantes ainda hoje, como as práticas de peregrinagem coletiva (Círios de Nazaré), a Lenda do Milagre de Fuas Roupinho ou a própria Imagem da Virgem da Nazaré original, iconograficamente uma Virgem do Leite e objeto de particular e intensa devoção em várias partes do mundo. No entanto, esta vertente das Festas não pode ser histórica e socialmente dissociada da sua dimensão lúdica, bem como socioeconómica. A romaria e a liturgia convivem, pelo menos desde o século XVI e nem sempre pacificamente, com a dimensão profana, de arraial, que se manifesta em manifestações populares como a tauromaquia, espetáculos teatrais e musicais (que deram origem ao Teatro Chaby Pinheiro, contíguo ao Santuário), pirotecnia, feira, danças, bailes, corridas de cavalo, malabaristas e jogos tradicionais, sem esquecer a comida e a bebida, que naqueles dias é farta. Da mesma forma, as Festas constituem há séculos um ponto de encontro entre as comunidades marítimas e rurais, por via designadamente dos peregrinos oriundos do interior da região e dos Círios que aqui acorrem anualmente, irmanados no mesmo culto, partilhando a mesma fé, os mesmos rituais, o mesmo consolo, a mesma alegria. O culto a Nossa Senhora da Nazaré consiste num conjunto de práticas religiosas de cariz Católico, associadas à veneração da Imagem de Nossa Senhora da Nazaré ancorada na Lenda do Milagre de Nossa Senhora da Nazaré que data de 14 de setembro de 1182. A lenda do Milagre dará origem às movimentações de peregrinações coletivas, Círios com origens diversas de Norte a Sul do País e cuja dinâmica irá fazer crescer a vida social no Sítio da Nazaré e no seu entorno, particularmente na freguesia vizinha - a Pederneira, e na Praia. Em 1610, o prelado Frei Roque de Soveral apresentava já a antiga romagem a Nossa Senhora da Nazaré como «frequentadíssima de copiosa gente». Dois anos antes, de resto, surgiram os primeiros registos de peregrinações coletivas organizadas, transportando símbolos e insígnias identificativas da sua localidade de origem e, sempre, uma grande vela (círio) abrindo o cortejo de romeiros. No seu auge, no século XVIII e XIX, chegaram a vir às Festas da Nazaré mais de 30 círios, sendo os mais impressionantes os de Lisboa, Óbidos e Coimbra. Da capital vinham também regularmente às festividades nazarenas muitas individualidades eclesiásticas ou da corte, incluindo presenças regulares da família real, para a qual foi construído um dos principais anexos do Santuário, o Paço Real. Partiu de resto da nobreza lisboeta a integração da tauromaquia nas Festas e todos os monarcas portugueses desde, pelo menos, D. Maria II, visitaram as Festas da Nazaré. Esta devoção festiva, que ganha grande profusão durante o século XVII e XVIII, com particular impulso durante a Dinastia Filipina e, até antes, na sequência da Contrarreforma da Igreja Católica iniciada a partir de 1545, reúne ainda hoje características particulares determinadas pela intervenção régia, que retira a tutela do Santuário ao poderoso Mosteiro de Alcobaça e cria o Santuário Real, a Casa Real da Nazaré e os edifícios de apoio à vida e à sociabilidade inerente às visitas régias ao Sítio da Nazaré, alterando a dinâmica das Festas em Honra de Nossa Senhora da Nazaré, particularmente com a introdução do Programa Lúdico que ainda hoje faz parte da vivência das Festas de Setembro e promovendo as condições de habitabilidade do Sítio.
Direção-Geral do Património Cultural Secretário de Estado da Cultura
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