Ficha de Património Imaterial

  • N.º de inventário: PROC/0000000056
  • Domínio: Práticas sociais, rituais e eventos festivos
  • Categoria: Festividades cíclicas
  • Denominação: Festas Nicolinas
  • Contexto territorial:
    Local: Guimarães
    País: Portugal
  • Caracterização síntese:
    As Festas Nicolinas são as festividades que os estudantes do ensino secundário de Guimarães celebram todos os anos, entre 29 de Novembro e 7 de Dezembro, em honra do seu padroeiro São Nicolau, venerado em toda a Europa. Além da sua dedicação a este Santo, referida com intensidade por muitos nicolinos, e reavivada em Guimarães com um novo despertar da Irmandade de São Nicolau, a dimensão religiosa das Festas Nicolinas é hoje quase residual. Os seus diversos números profanos situam-nas no conjunto de antigas celebrações populares europeias marcando o carácter liminar do início do inverno e destinadas a conjurar os seus aspetos assustadores pela subversão e reinstauração da ordem social, e pelo recurso a uma simbologia lembrando a permanência da vida. A dimensão liminal das Festas Nicolinas estende-se aos seus organizadores, uma Comissão composta por 10 estudantes rapazes, e configura para eles um ritual de passagem à idade adulta. Estes traços tradicionais articulam-se com aspetos muito específicos destas festividades, as mais antigas do Concelho de Guimarães. São as únicas festas de estudantes do ensino secundário existentes na atualidade em Portugal e o único contexto em que ainda se usa um antigo traje académico liceal. Decorrendo em contexto urbano, realizadas por uma juventude aberta à multiculturalidade contemporânea, trazem para a cidade manifestações de uma ruralidade essencialmente pretérita, evocação do universo camponês com que a urbe vivia outrora em estreita simbiose. Plurisseculares, com uma existência enraizada em celebrações e travessuras estudantis associadas ao dia de São Nicolau que estão documentadas em Guimarães até pelo menos 1645, as Festas Nicolinas evidenciam uma notável resiliência aos sobressaltos da História e passaram por fases de maior ou menor esquecimento e várias regenerações. No essencial, os seus traços atuais e a sua extensão além do dia 6 de Dezembro foram estabelecidos em finais do século XIX, a partir da sua revitalização em 1895 após duas décadas de quase desaparecimento. Tendo surgido ao longo de séculos num grupo da elite social vimaranense, os números são no entanto inspirados em práticas da tradição popular europeia e em particular minhota. E as Festas Nicolinas são agora objeto de uma forte apropriação coletiva local, afirmada a partir da democratização e massificação do ensino secundário após o 25 de Abril. Alimentando-se de uma convicção identitária vivida com intensidade, o sentimento de pertença a uma comunidade e o desejo de contribuir para a transmissão da sua memória, que as Festas enaltecem, podem ser considerados como constituindo hoje o seu principal significado.
Direção-Geral do Património Cultural Secretário de Estado da Cultura
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